quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Economia: o notável exemplo da Bolívia

Além de rechaçar o FMI, país fez reformas estruturais e evitou concessões a grandes empresas. Sucesso revela fragilidade das ideias conservadoras
por Antonio Martins — publicado 19/02/2014 18:55, última modificação 19/02/2014 19:20
Aizar Raldes / AFP
Evo Morales
Evo Morales no Palacio Quemado, em 12 de fevereiro. Êxito na distribuição de riquezas e reformas estruturais revela espaço para alternativas
[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aquivocê vê o site completo]
Uma vasta onda de conservadorismo econômico varre o Brasil. Neste exato instante, por exemplo, o ministro da Fazenda Guido Mantega batalha por um amplo corte no Orçamento da União para 2014. Reduzir investimentos públicos é, pensa ele, indispensável para “tranquilizar os mercados”, sinalizando que o governo Dilma não adotará políticas que os afetem e recuperando sua “confiança“. Entre os adversários mais fortes da presidente, o cenário é ainda mais devastador. Aécio Neves prega o retorno puro e simples às políticas neoliberais. Eduardo Campos e Marina Silva cercam-se, informa o Valor Econômico, dos principais assessores econômicos de FHC. Preveem, se eleitos, ampliar as concessões que o Executivo faz, há meses, ao mundo das grandes finanças. Não há saída, todos parecem calcular: num mundo em que a crise agrava-se, a única opção de governantes prudentes seria evitar ousadias, não confrontar o grande poder econômico, esperar que passem os tempos de vacas magras. Será verdade?
Uma reportagem na edição de hoje do New York Times sugere desconfiar deste consenso. Trata de um país cuja força para resistir às pressões dos mercados financeiros é, em teoria, incomparavelmente mais reduzida que a do Brasil: a frágil Bolívia, com PIB (US$ 50 bilhões) cerca de 46 vezes inferior ao nosso. Traz revelações surpreendentes. A economia boliviana cresceu 6,5% no ano passado — uma das taxas mais altas do mundo. As reservas internacionais em moedas fortes são, proporcionalmente, quase duas vezes superiores às brasileiras. A dívida pública cai a cada ano. Tudo isso foi alcançado com medidas opostas às esboçadas pelos candidatos brasileiros.
New York Times não nutre simpatias por Evo Morales, mas o texto reconhece, com honestidade: tais êxitos foram alcançados porque seu governo “abandonou as recomendações do FMI e de outras grandes fontes de financiamento”. Em três sentidos, pelo menos.
Primeiro, inverteu-se a submissão automática aos mercados. Nos anos 1990, a Bolívia tornara-se conhecida por aceitar a condição de laboratório das políticas neoliberais. Em nome do combate à inflação, houve cortes maciços de programas sociais, fim de subsídios a bens essenciais, privatizações, demissões em massa. Tentou-se a privatização das fontes de água (em Cochabamba) e das reservas de gás. Produziu-se desigualdade, marginalização, instabilidade política, e as revoltas que levaram Evo ao poder.
Iniciado em 2006, seu governo lançou políticas ousadas de redistribuição de renda — em especial, aumento das aposentadorias e uma versão local do Bolsa Família. O percentual da população vivendo em extrema pobreza caiu de 38% para 24%, em seis anos. El Alto, subúrbio proletário e rebelde de La Paz, é marcado hoje, continua a reportagem, pela reforma febril das casas populares e pela multiplicação de padarias mais ou menos refinadas. No campo, as comunidades camponesas começam a substituir o arado puxado por animais por tratores.
A estes fenômenos, que também podem ser observado em algumas periferias brasileiras ou no interior do Nordeste, o governo boliviano somou reformas econômicas de fundo. A exploração do gás — principal produto de exportação —  foi renacionalizada em 2006. A alta das cotações internacionais do produto não encheu os bolsos de poucos proprietários privados (como ocorre com o agronegócio e as mineradoras, no Brasil). Ajudou, ao contrário a ampliar os programas sociais, os investimentos de infra-estrutura, a geração de ocupações. Em novembro do ano passado, Evo apoiou-se nesta alta para instituir um 14º salário para os servidores públicos e parte dos trabalhadores privados.
Por fim, não houve (ao contrário do Brasil) concessões fiscais a grandes grupos econômicos. Ao contrário. As tentativas de desinvestimento, por parte do empresariado, foram enfrentadas com a nacionalização de pelo menos vinte companhias, numa série de setores econômicos.
Os resultados positivos impressionam os próprios representantes de instituições antes hostis. “A oportunidade [aberta pela alta dos preços do gás] poderia ter sido desperdiçada, mas a realidade é que não foi”, disse ao New York Times o representante do Banco Mundial na Bolívia, Faris Hadad Zarvos. Seus superiores na hierarquia da instituição parecem reconhecer o sucesso.
Em dezembro de 2012, Evo Morales propôs o desmantelamento “do sistema financeiro internacional e de seus satélites, o FMI e o Banco Mundial”. Seis meses depois, o novo presidente do banco, Jim Young Kim, não se incomodou a jogar uma partida de futebol com o próprio presidente, para celebrar o reatamento das relações entre as duas partes.

PAC 2: DE BELO MONTE A MANGUINHOS /Conversa Afiada


Como se sabe, existem o PAC1, o PAC2 e o PAC do PiG (*).

Para o PiG, os PACs empacaram.

Pensam que a Presidenta Dilma é o Príncipe da Privataria (não deixe de assistir ao trepidante vídeo: como se escreve “sacolejar”; e não deixe de votar na enquete: onde o FHC vai sacolejar no Carnaval? )

Nos oito sombrios anos do Príncipe da Privataria não se realizou nem uma obra que usasse cimento ou tijolo.

Uma única.

Mas, ele foi sem sapatos ao FMI três vezes.

Uma questão de estilo …

A mãe do PAC, como se sabe, até as eleições vai inaugurar um PAC por dia.

Para ajudar o amigo navegante a entender o que a Ministra Miriam Belchior anunciou, o editor do Conversa Afiada, Murilo Silva preparou singelo texto, que tem também a propriedade de debochar desses jornalistas, analistas de pacs, que, segundo o Mino, são piores que os patrões:




O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento surgiu em 2007, no segundo mandato do presidente Lula. 

Foi um programa para o período de 2007-2011.

Queria organizar as políticas de investimento e fazer o país crescer e, também,  combater os problemas infra-estrutura do País e aumentar a taxa de investimento público com relação ao PIB. 


O investimento público, de fato,  passou de 1,62% do PIB, para 3,72%. 

Foram entregues cerca de 2 500 empreendimentos ao custo de R$ 619 bilhões, o que ajudou a gerar 8,2 milhões de empregos. 

Politicamente, o programa também foi um sucesso, ao eleger a presidenta Dilma, que o Presidente Lula apresentou ao eleitorado como ”a mãe do PAC”. 

Em 2011, a família cresceu. 

O programa entrou em uma segunda fase, o PAC 2. 

Essa semana, o Ministério do Planejamento, responsável pela coordenação do PAC, divulgou o balanço com os resultados de 3 anos do projeto, idealizado para ser concluído entre 2011 e 2014.

Um ano antes do fim do prazo, o PAC entregou 82% das obras que propôs (o PAC 2 contém mais de 30 mil empreendimentos).

As obras entregues totalizam R$ 582 bilhões em investimentos. 

Dos recursos destinados ao PAC 2, R$ 773 bilhões já foram empenhados, o que representa 76% do total do programa. 

Ao todo, o PAC 2 investirá mais de 1 trilhão de reais. 

O volume de empregos no setor de obras em infra-estrutura cresceu em média 5,3% nos últimos 3 anos – um crescimento acima da média nacional de geração de empregos formais. 

Esses empregos colaboraram para que o Brasil alcançasse a menor taxa histórica de desocupação, 4,3%.

Em infra-estrutura, o PAC 2 significa mais de 3 mil quilômetros de rodovias e mais de 2,4 mil quilômetros de ferrovias. 

Só o trecho sul da Rodovia Norte-Sul, de Palmas-TO a Santa Barbara do Oeste-SP, tem mais de mil e quinhentos quilômetros de extensão.

Em portos, são 21 obras, como a construção do Terminal Marítimo de Passageiros do Recife, e a recuperação da Avenida Perimetral do porto de Santos. 

Tem a drenagem, o alargamento e o aprofundamento em sete portos, entre eles o de Santos, o maior terminal portuário da América Latina. 

Em aeroportos, são 22 obras que aumentam a capacidade de transporte aéreo no Brasil em 15 milhões de embarques/ano. 

Na geração de energia, são mais de 10 mil MW que entraram para estoque energético brasileiro. 

É eletricidade para abastecer uma população de 21 milhões de pessoas, quase duas vezes a população da Grande São Paulo. 

Entre as principais obras estão Jirau e Santo Antônio, em Rondônia; a usina do Estreito, entre Maranhão e Tocantins; e a usina Mauá, no Paraná, todas elas já m operação. 

Em janeiro de 2015, deve ser inaugurada a usina de Teles Pires, entre Alta Floresta e Paranaíta, em Mato Grosso, e Jacareacanga, no Pará.

Ainda no setor de energia, o PAC2 financia 33 usinas eólicas; 6 térmicas; e outras hidroelétricas que virão depois do PAC, mas que já estão em construção. 

Só Belo Monte terá a capacidade instalada de produzir  11 mil WM, ao custo de 25 bilhões de reais. 

Nos próximos anos, o Brasil deve aumentar em 26 mil MW a capacidade do parque elétrico. 

O PAC funciona também como indutor de desenvolvimento, fomenta novas cadeias produtivas. É o caso da indústria naval.

Com recursos do PAC2, em 2013, na área de exploração e produção de petróleo, foram entregues quatro navios de grande porte, entre eles, o petroleiro Dragão do Mar e o navio de produtos José Alencar; outros 23 estão contratados, 12 estão em construção.
(O Governo Fernando Henrique quebrou a indústria naval.

Lula o recuperou.

Fernando Henrique dava emprego a trabalhador de Cingapura,  onde encomendava as plataformas da Petrobras.

Lula e Dilma dão emprego a trabalhadores brasileiros – Clique aqui para ler sobre o lançamento da Plataforma , quando Dilma anunciou que o Brasil será o maior construtor de plataformas de petróleo do mundo – PHA)

No final da década de 90, a indústria naval empregava 1.900 trabalhadores.

Em 2010, o número de trabalhadores no setor saltou para 78,4 mil – segundo o Sinaval, Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore.

Breve a indústria naval e de navipeças empregará mais brasileiros que a indústria automobilística.

Os investimentos em petróleo, que exigem a construção de embarcações e plataformas, também se aplicam na construção de refinarias, como Abreu e Lima (PE). 

Abreu e Lima, que deve começar a operar ainda esse ano, poderá processar até 230 mil barris de petróleo por dia. 

Há ainda a refinaria Premium I (MA), da Petrobras, considerada a maior obra do PAC – a construção custará 40 bilhões de reais, e está prevista para ser entregue em 2016:  a refinaria processará até 600 mil barris de petróleo por dia. 

As refinarias são importantes porque, mesmo auto-suficiente em petróleo, o Brasil continua a importar gasolina e díesel. 


Em habitação, o Minha Casa Minha Vida, também incluído nas obras do PAC2, fomenta a construção civil. 

O programa já entregou 1,5 milhão de moradias – o que equivale às moradias da região metropolitana de Belo Horizonte – e já tem mais de 3,2 milhões de unidades contratadas. 

Com habitação, vem os investimentos nas melhorias das condições urbanas.

Muito além das exportações e importações, beneficiadas pelos novos portos; da produção de soja no centro-oeste, beneficiada pelas estradas e rodovias; ou dos aeroportos para Copa, o PAC é também é a favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Só na comunidade de Manguinhos, o PAC investiu entre 2007 e 2014, 671 milhões de reais para o programa de urbanização de favelas. 

As obras englobam saneamento; tratamento de água; construção de 1 700 casas populares e o re-assentamento de mais 1 600 famílias que moravam em áreas de risco. 

O PAC tem 15 bilhões em investimentos para obras de saneamento básico, já contratadas, entre 2011 e 2014, em todo o país. 

O programa de reurbanização de Manguinhos – que também prevê a construção de aparelhos públicos como creches, UBSs e quadras poliesportivas – deve ser concluído em dezembro de 2014 e vai beneficiar 12 mil famílias. 


Murilo Silva, editor do Conversa Afiada

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A confissão de Boni sobre o debate entre Lula e Collor


Postado em 17 Feb 2014
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Me enviam um vídeo que resume o Brasil.
Nele, sorridente, aparentemente orgulhoso, o ex-chefão da Globo, Boni, confessa um crime de lesa sociedade.
Você pode vê-lo aqui.
Boni conta que, no célebre debate entre Lula e Collor que definiria as eleições presidenciais de 1989, a Globo preparou Collor.
Quer dizer: uma concessão pública achou que tinha o direito de se meter nas primeiras eleições diretas para presidente.
A Globo, conta Boni, tirou a gravata de Collor para dar a ele um ar mais popular. Se pudesse, disse Boni, a Globo borrifaria caspa em Collor, a exemplo da tática clássica de Jânio Quadros para se identificar com a voz rouca das ruas.
Mas havia coisa bem pior.
Há muitos anos conheço a história das pastas de Collor. Ele se apresentou no debate com elas.
O que nas redações se comentava é que fora um truque de Collor. Chegou a Lula a informação de que na pasta estavam denúncias contra ele.
Lula ficou apavorado. Durante todo o debate, Collor fingia de tempos em tempos que ia abrir as pastas para apanhar coisas que comprometeriam Lula.
As pastas tinham papel que não significavam nada, na realidade. Mas levaram Lula a ter um desempenho sofrível num debate vital.
A revelação – confissão – de Boni é que quem armou o golpe das pastas foi a Globo, e não Collor.
Mais uma vez: ele disse isso em tom triunfal. Não tinha noção, ou não parecia ter, da gravidade do que estava dizendo.
O que se fez diante das palavras de Boni?
Nada. A mídia não se mexeu. A justiça não se mexeu. O governo não se mexeu. Para que serve um Ministério da Comunicação?
Este é o Brasil.
A Globo goza de espantosa impunidade. Pode fazer tudo, que não acontece nada.
Boni conta que o homem chave da Globo no crime foi o executivo Miguel Pires Gonçalves, filho de um general da ditadura. A Globo agora contrata filho de ministro do Supremo. Antes, contratava filho de general. Mudaram as circunstâncias, mas a Globo ficou igual.
Joaquim Barbosa arrumou um emprego para o filho na Globo. Ayres Britto escreveu o prefácio de um livro de Merval sobre o Mensalão. Gilmar Mendes aparece em fotos ao lado de Merval.
Lula, a vítima do crime eleitoral da Globo, foi ao enterro de Roberto Marinho, e produziu uma eulogia em que disse que o falecido era um brasileiro que viera “a serviço”.
A serviço do quê?
Não satisfeito em aplaudir Roberto Marinho, Lula decretou três dias de luto oficial. Ao fazer isso, Lula enxovalhou a memória de homens como Getúlio Vargas e João Goulart, vítimas das conspirações golpistas de Roberto Marinho.
É possível que o episódio do debate tenha deixado Lula para sempre com um sentimento paralisante de medo em relação à Globo, para infortúnio da sociedade.
A Carta aos Brasileiros, com a qual logo no início do mandato ele se comprometeu essencialmente a não fazer nada de muito diferente do que vinha sendo feito antes dele, foi arrancada a ele por João Roberto Marinho, filho de Roberto Marinho.
Montaigne escreveu que seu maior medo era ter medo.
A Globo pôs medo em Lula e no PT. E põe medo no Brasil.
O medo foi o responsável pela chamada “mídia técnica”, pela qual a Globo recebeu de governos petistas 6 bilhões de reais em dez anos mesmo tendo sonegado escandalosamente impostos e mesmo produzindo um conteúdo destrutivo para todas as causas sociais. A manchete do Globo quando foi efetivado o 13.o, sob Jango, dizia que se tratava de uma “calamidade”.
O medo da Globo impediu que se discutissem regras para a mídia, para evitar monopólios como a Globo.
Se Kirchner tivesse medo do Clarín, não faria o que fez.
Enquanto perdurar o medo da Globo, o país vai patinar no desenvolvimento social, porque a Globo é um obstáculo intransponível para a construção de uma sociedade justa.
É irônico que um partido que dizia que a esperança tinha que vencer o medo tenha se tornado, ele mesmo, depois de chegar ao poder, tão medroso.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Blog do Rafael Castilho Um espaço para os espíritos livres!

Manifesto ao manifesto dos jogadores do Corinthians



Manifesto de um torcedor comum aos jogadores do Corinthians

Senhores jogadores, antes que imaginem que me identifico como um torcedor comum em oposição aos torcedores organizados, gostaria de dizer que não se trata disso.

Fico feliz que vocês estejam se organizando em movimentos de paralisação ou mesmo na produção deste manifesto.

É certo, portanto, que vocês entenderam a importância da livre associação e da força oriunda da união entre as pessoas que compartilham os mesmos interesses e objetivos. Certamente todos ficam muito mais fortes e as vitórias mais próximas e possíveis.

Ainda que haja um grande proveito a partir da organização dos jogadores, logo vocês perceberão que não estarão livres dos erros e que não conseguirão ser responsáveis pelas diferentes expressões das partes que desejam falar pelo todo. Mas sem pressa. Isso vocês entenderão com o tempo.

De fato, não faço parte de nenhuma torcida organizada do Corinthians. Não porque eu seja contra a organização destas. A marginalização das torcidas, não é somente fruto doserros imperdoáveis de alguns de seus integrantes. Acredito que se esta sociedade fosse tão intolerante com a violência, não viveríamos tropeçando em cadáveres todos os dias. Se quiséssemos realmente uma sociedade menos violenta teríamos construído um país mais justo ao longo dos séculos. Sobretudo com as pessoas mais pobres das periferias que são esmagadas todos os dias, seja através das balas, seja no vai e vem cotidiano em trens e ônibus superlotados. Em filas de hospitais e sem ter a quem recorrer. Mas isso vocês devem saber. A grande maioria de seus colegas tem origem entre os pobres deste país.

O que incomoda de fato nas torcidas organizadas é a ameaça da construção dos sistemas de solidariedade entre os indivíduos.

Quando alguns tolos se perdem em brigas e emboscadas, isso serve de combustível para o show de horror dos jornais sensacionalistas.

Espero que “os caras” descubram a tempo que há na verdade um processo de elitização do futebol. Que eles estão prestes a serem varridos dos estádios. E quando digo “eles” estou me referindo aos pobres. Não sou tão otimista, mas caso eles não acordarem rápido e pararam de digladiar uns com os outros e percebam que independente da camisa que vestem compõem em sua grande maioria a mesma classe social, perderão o acesso à experiência maravilhosa que é curtir uma partida de futebol, algo absolutamente ligado à cultura do povo brasileiro.

Sei que isso não é problema de vocês craques, mas não são somente os torcedores marginalizados. Professores, sindicalistas, manifestantes, blocos de carnaval, movimentos sociais, usuários insatisfeitos da CPTM. Todos estão no mesmo balaio do crime organizado, da cracolândia e do vandalismo. Fazem parte do mesmo caldo chamado “sociedade”. Algo que os conservadores não entendem muito bem como funciona e assim preferem destruir evitando uma possível sabotagem aos donos do poder.

Pois bem, vocês se organizaram e aqui estão manifestando-se pela segurança e integridade física de vocês e de suas famílias.

Nada mais justo. As ameaças e ataques são recursos que revelam a imaturidade de alguns indivíduos frente ao diálogo e a interlocução. Temos que dar um salto a diante. Superar essa condição. Aprender a usufruir de novos recursos e ferramentas de comunicação e representação.

Se o manifesto de vocês tem como objetivo combater a violência e reivindicar garantias de segurança para os jogadores e funcionários, está tudo de muito bom tamanho. Deveríamos inclusive aplaudir a atitude de vocês.

Mas espero do fundo do coração que o objetivo seja somente esse. Que não esteja embutida uma intenção de “enquadrar” a torcida do Corinthians e fomentar o insolidarismo entre nós. Que não queiram tirar da gente aquilo de mais precioso e genuíno da nossa história, que é justamente a participação.

Sei que pode parecer um inconveniente para um profissional bem remunerado do futebol, mas caso vocês não saibam, a participação da nossa torcida não se restringe aos aplausos ou eventuais vaias nas arquibancadas cada vez menores e nas numeradas cada vez maiores.

Construímos um clube popular, fruto de um pacto que envolve  a participação, a fiscalização e empoderamento deste povo que efetivamente fez o Corinthians.

O que para vocês é um emprego, para nós é a coisa mais linda que habita no nosso coração. A lembrança mais doce e ingênua da nossa infância. A memória dos nossos pais que se foram. Ou mesmo dos pais que não tivemos.

O que para vocês é trabalho, para nós é voluntarismo. Se vocês são profissionais do Corinthians, nós somos amantes. Vivemos uma relação de amor vagabundo e indecente com o Corinthians.

O Corinthians não é o Parque São Jorge, o Centro de Treinamentos ou o Itaquerão. Nós somos o Corinthians. Isso mesmo! Essa gentalha que lhes parece esquisita. A maloqueirada. Os apaixonados. Somos também empresários, lavadores de carro, bancários, vagabundos, trabalhadores que pegam todos os dias o transporte público ou o trânsito lotado sonhando em pagar a faculdade dos filhos, para que eles tenham uma vida mais digna, porém jamais virando as costas para o Corinthians.

Li o manifesto e percebi que vocês se ressentem dos últimos resultados dentro de campo. Deixem isso pra lá! Vocês não entenderam nada! Ser for isso tudo bem...

Não se trata de resultado. Que percam mais dez, vinte ou mil jogos. Seguiremos lotando os estádios e apoiando o Corinthians. Crescemos e nos tornamos mais fortes nos 23 anos sem títulos. Basílio é um padroeiro por ter empurrado aquela bola pro fundo do gol. E tanto faz se era Paulistinha, Paulistão, Libertadores ou Mundial. Era o Corinthians das nossas vidas.

Quando o Corinthians joga o Campeonato Paulista contra um Bragantino da vida, não sentimos vontade de ir à praia conforme disse o nosso intelectual de sorveteria, capitão Paulo André. Na verdade, nós cancelamos a praia, a festa, a balada, o encontro e talvez até o casamento para ver o jogo do Coringão.

Talvez seja essa a nossa dificuldade de comunicação.

O Corinthians está dentro da gente. E o que mantém ele preso aqui dentro do nosso peito, no imaginário coletivo, é justamente a identidade.

Na medida em que o Corinthians se converte numa confraria de senhores bem estabelecidos, acomodados com o recente sucesso, desfrutando as delícias das luxúrias em noites intermináveis, vocês afastam o Corinthians da gente.

Quando vocês se perdem num concurso de vaidade que salta aos olhos de todos, vocês afastam o Corinthians da gente.

Quando nossos mandatários ficam satisfeitíssimos de si por suas grandes obras e constroem novos prédios onde se supõe que talvez não possamos entrar, isso afasta o Corinthians da gente.

E vocês não têm noção dessa violência. É arrancar sem anestesia o nosso coração à unha.

Outra vez para que fique claro: a violência não dá pé. Foi tudo precipitado e feito dojeito errado. Mas espero que vocês não façam parte de um jogo sujo e tentem chantagear a torcida do Corinthians. Não queiram tirar a pressão de seus ombros, esganando justamente a torcida.

Hoje pode parecer desejável que estejamos restritos às arquibancadas ou até mesmo afastados dos estádios. Mas cá entre nós, não foi legal quando abraçamos o elenco da porta do CT até o Aeroporto, simplesmente para dizer um “Vai com Deus Corinthians?”.

Não há fronteira entre nós e o Corinthians. Não há arame e cerca elétrica que nos separe.

Não somos um CNPJ, somos um movimento social. Daqui um tempo, todos estarão longe e a torcida permanecerá. Daqui uns anos, muitos de nós viveremos em outro plano, mas o Corinthians continuará existindo nos nossos filhos.

Fechamos assim: um pacto de respeito mútuo. A violência é inaceitável. Mas que vocês entendam de uma vez por todas O porquê do VaiCorinthians!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Paulo Moreira Leite Diretor da Sucursal da ISTOÉ / QUEM TEM MEDO DAS DOAÇÕES

Tentativa de criminalizar arrecadação dos réus da AP 470 procura esconder críticas cada vez maiores ao julgamento


Só quem ainda não entendeu o que está acontecendo com a ação penal 470 implica com as doações recebidas por Genoino e Delúblo Soares.
Basta fazer uma conta de aritmética simples para entender que são números compatíveis, por exemplo, com o número de filiados ao PT. Eles somam 1,7 milhão de brasileiros. Em teoria, bastaria que cada filiado doasse R$ 1 para que o total fosse atingido. Claro que não foi isso o que ocorreu mas essa estimativa dá uma ideia do processo.
Sem que se tenha provado nenhuma irregularidade nas arrecadações, a divulgação da (suspeita? denuncia? calunia? mentira? ) sobre lavagem de dinheiro e os pedidos de investigação são apenas tentativas de esconder um fato político de primeira ordem: a visão de muitos brasileiros sobre o “maior julgamento da história” está mudando – e rapidamente.
 Em vez atender ao grotesco pedido de Joaquim Barbosa, estes cidadãos mostram que os condenados não serão punidos com o esquecimento. Pelo contrário. Tem gente que é capaz de colocar a mão no bolso para dizer que serão lembrados. 
 O esforço para criminalizar as doações é apenas uma tentativa de criminalizar um movimento político legítimo e, do ponto de vista de muitas pessoas, necessário.
 Não há nada de novo aqui, quando recordamos qual era o sentido a ação penal 470: criminalizar lideranças de um governo que, com todas as falhas e defeitos, mostrou-se capaz de realizar diversas mudanças urgentes, de interesse da maioria da população.
 O sinal novo, que não se quer enxergar, encontra-se nas doações.
 Abatidos, derrotados e desmoralizados depois do julgamento, os eleitores de Lula, os filiados ao PT,  sindicalistas e milhares de  cidadãos de convicções democráticas mostram que não perderam a capacidade de incomodar-se diante de uma injustiça cada vez mais visível.
 Perderam o medo de mostrar seu inconformismo.
 É por isso que as doações incomodam, quando deveriam ser celebradas.
 Elas expressam uma força que nossos vira-latas da sociologia barata tanto elogiam nos países desenvolvidos – a presença, em nossa sociedade, de homens e mulheres que não se dobram nem se submetem.
Já vimos, inúmeras vezes, como essa capacidade de resistência tem importância em nossa história. O processo está se repetindo, e a arrecadação é apenas um sinal.
As doações mostram, essencialmente, que cresce o número de pessoas convencidas de que tivemos um julgamento injusto, partidarizado e contraditório. Não é para menos.
Está cada vez mais evidente que não era possível impedir o desmembramento da ação penal 470 depois de garantir esse direito aos réus do mensalão PSDB-MG.
 A decisão de manter sob sigilo as provas reunidas nos 78 volumes do inquérito 2474, que pode ser acompanhada num vídeo disponível na internet, mostra-se tão ilegítima como suspeita. Pergunta-se: se as provas da acusação contra eram tão boas e tão consistentes, por que deveriam ficar escondidas?  
 Além de serem condenados por uma doutrina que dispensa provas individuais contra cada um dos réus, como manda o Direito Penal, os réus agora enfrentam penas agravadas artificialmente, apenas para garantir que eles ficassem submetidos a longas temporadas sob regime fechado.
 O voo de 15 de novembro, a guerra de laudos médicos, a tensão fabricada contra prisioneiros do AP 470 e os demais apenados,  numa tentativa tosca de denunciar “privilégios” que nunca se mostram, apenas demonstra um esforço para desmoralizar os réus, e criar um estigma político para impedir e uma discussão serena e necessária sobre o julgamento.
 O ponto é este. As pessoas que criminalizam as doações temem, acima de tudo, serem criminalizadas pela própria consciência. Sabem que poderão ser cobrados pelo silêncio, pela omissão, pela hipocrisia.
 Mais uma vez, e há uma ironia amarga, aqui, é a noção de que todos são inocentes até que se prove o contrário que está em jogo aqui. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tuma Jr só não assassina reputação porque não tem credibilidade

Invocou cadáver para comprovar acusação
Invocou cadáver para comprovar acusação
Romeu Tuma Jr, como era previsível, foi ao Roda Viva, hoje o programa mais reacionário da televisão brasileira.
Se você quer aparecer no Roda Viva fale mal do PT. Suas chances imediatamente aparecerão.
Tuma Jr estava claramente desconfortável. Arfava, suava, vagava, se perdia em frases longas frequentemente sem nexo.
O peso excessivo do entrevistado e o calor deste verão contribuíram para dar um ar opressivo à entrevista.
Tuma Jr carrega um peso morto, seu “livro bomba”, aspas. Como era esperado por todo mundo, excetuada a direita mais petrificada, o livro não deu em nada.
Ontem, o que se viu foi o triunfo da esperança: a tentativa de salvar a obra de seu destino inevitável, o lixo.
O coveiro do livro foi, curiosamente, FHC. Coube a ele liquidar a maior “denúncia” de Tuma Jr: a de que Lula foi “informante” da polícia na ditadura.
Num programa de tevê, FHC descartou essa acusação enfaticamente – e com um certo desprezo pela natureza dela e de seu formulador.
É uma acusação, de fato, desprezível. Tuma Jr invoca seu pai morto para dizer que Lula era informante. Repito: a testemunha de Tuma Jr é um cadáver.
O livro só não foi inteiramente ignorado por causa do brutal esforço da Veja, a olavete da mídia brasileira, em fazer dele uma coisa séria.
Mas a Veja, se pôde muito na era Collor, hoje pode pouco, muito pouco. Mesmo dando um espaço descomunal para Tuma Jr, nada aconteceu.
A bomba não explodiu.
Explodiria, sim, no colo do autor, se a justiça brasileira funcionasse. Mas não funciona. Você processa alguém por calúnia e a ação vai terminar em mãos amigas.
O próprio Nunes, processado por Collor há algum tempo, foi inocentado depois de chamá-lo de “chefe de bando”.
Collor ponderou que o STF o tinha absolvido de todas acusações, razão pela qual ele está em liberdade e retomou sua carreira política. Mas a juíza que avaliou o caso achou que “chefe de bando” não era ofensa. Assim funciona a justiça brasileira.
Falei algumas vezes que a sorte de diretores da Petrobras caluniados por Paulo Francis foi poder processá-lo na justiça americana, uma vez que as acusações tinham sido feitas em Nova York, no programa Manhattan Connection.
FHC, então presidente, tentou convencer os executivas a desistir da ação, mas sem sucesso. Serra, ministro, também interveio, mas como FHC fracassou.
Como a justiça americana é diferente da brasileira, Paulo Francis se viu na iminência de pagar uma indenização brutal. Atormentado, morreu do coração.
Tuma Jr, no programa, se gabou de que ninguém citado em seu livro o processou. Claro. Estamos no Brasil. Você processa, se desgasta, é acusado de censor e, como no caso Collor X Nunes, não acontece nada.
Você ainda é perseguido, depois. Francis teria com certeza aumentado o volume de suas infâmias se o processo fosse no Brasil, absolutamente confiante na impunidade.
Tuma Jr, como Francis, não tem provas. Isso lhe foi cobrado ontem por alguns entrevistadores. Ele, pitorescamente, disse que tinha escrito um livro, e não montado um inquérito, o que o deixaria sem a obrigação de provar acusações.
Imagino-o dando esta explicação num tribunal americano, e faço uma pausa para rir.
Foi igualmente pitoresca a observação de Augusto Nunes a respeito das provas. Ele disse ter visto, e as definiu como “muito contundentes”.
Bem, quem acredita em Nunes acredita em tudo.
A coisa mais próxima de evidência dada por Tuma Jr foi uma foto na qual Lula, preso, aparece fumando num carro da polícia, há coisa de 30 anos.
A foto, de extraordinária banalidade, seria a prova de “privilégios” dados a Lula em troca de informações.
Tuma Jr fala no livro em “assassinato de reputações”. Mas o que ele fez foi exatamente uma tentativa de assassinar reputação. Só não foi bem sucedido porque, fora não ter credibilidade em dose mínima, cadáveres não são muito aceitos como testemunhas, principalmente quando invocados para apoiar uma acusação que, vivos, jamais fizeram.
Ainda no campo da comédia, foi engraçado ver a expectativa – simplesmente lunática – de irmãos de causa de Tuma Jr e Augusto Nunes.
No Twitter, Lobão e Claudio Tognolli (que escreveu o livro de Tuma Jr) publicaram vaticínios apocalípticos.
O Brasil jamais seria o mesmo depois do programa, segundo eles.
Eles estavam apostando na idiotice da sociedade. Mas já faz tempo que a pessoa que faz este tipo de aposta acaba perdendo – e fica, ela sim, no papel de idiota.