domingo, 23 de dezembro de 2018
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Porque o Flamengo não é o Corinthians por Rafael Castilho no "Meu Timão"
Me recordo que há alguns anos, assistia um desses programas de debates esportivos com o saudoso jornalista carioca Armando Nogueira, já falecido. Isso foi no tempo em que os programas com esse formato eram muito mais do que concurso de palhaçadas e polêmicas burras. Não subestimavam a inteligência de quem assistia ao programa.
A discussão era a tentativa de comparação entre a torcida do Flamengo e a torcida do Corinthians. O botafoguense Armando Nogueira me provocou gargalhadas ao tentar resumir dizendo: “As duas torcidas são parecidas, mas a do Corinthians é mais nervosa”.
Sei que de cara, o leitor corinthiano deve ter suspirado, já a essa altura do texto, e dito baixinho para si mesmo: “Para com isso, não dá pra comparar”. Pois é, talvez sejam realmente coisas incomparáveis, mas não custa nada, nesse momento de tanta alegria, em que mandamos “aquele abraço” para a torcida do Flamengo, superando-os na Copa do Brasil, fazer um exercício e entender o porquê o Flamengo não é, nem nunca vai ser o Corinthians.
Sempre achei desnecessária essa discussão sobre qual é a maior torcida do Brasil. Para efeitos práticos essa contagem de um a um não tem a menor importância.
A verdade é a seguinte: O Flamengo tem mais torcida, o Corinthians tem mais torcedores. Isso sim tem uma grande diferença. É só parar pra pensar.
As duas torcidas são muito populares. São também torcidas nacionais. Porém, ao que parece, a influência em suas formações das duas grandes cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, sejam definidoras de certas características muito particulares dos dois clubes. São visões (e paisagens) de mundo bem distintas.
Não há como não se apaixonar pelo Rio de Janeiro. Os corinthianos sabem muito bem disso. Já organizamos algumas invasões em massa que entraram para a história da humanidade e tratamos o Maracanã como nosso algumas vezes. Vimemos momentos lindos no Rio de Janeiro.
Quando se ouve uma canção falando do Rio de Janeiro, é sempre aquela narrativa contemplativa. O sol, o céu, o mar, o barquinho vai, o Corcovado, a moça bonita, o país tropical. Quando ouvimos as canções sobre São Paulo é sempre o trem que se vai perder, é alguma coisa que acontece no meu coração (Seria taquicardia? Um infarto no miocárdio?).
As poesias sobre São Paulo narram sempre o descompasso do indivíduo com o funcionamento da cidade. O despejo na favela. O barracão que foi arrastado. A saudosa maloca que não existe mais. A vida que passa rápido e a gente nem vê direito como envelhece na cidade.
O Flamengo é uma canção do Jorge Benjor, cheio de alegria. O Corinthians é um samba do Adoniran, com irreverência, provocação e uma dose indisfarçada de melancolia.
O Flamengo é o time do Lado A, onde ficavam as grandes canções de sucesso. O Coringão é Lado B, onde colocam as músicas que mexem com a cabeça da gente. As canções que fechamos os olhos para ouvir com atenção. O Corinthians é profundidade.
Torcer para o Flamengo é uma grande festa. Torcer para o Corinthians é um dever.
Nos jogos do Flamengo tem aquela coisa, também maravilhosa, da alegria. Quem não gosta de ser feliz? Todo mundo. Claro que gostamos. No Flamengo tem aquela galera que vai fantasiada no estádio pra fazer piada. Acontece que no Corinthians o bagulho é louco. A gente passa a semana inteira dormindo mal pensando como vai ser na hora do jogo. Não dá pra fazer muita festinha. Tem dia que no caminho pro estádio já está todo mundo pilhado. Nem dá pra falar muito um com o outro. Se falar demais, se ficar cutucando o amigo, ele já responde: “que foi, porra?, me deixa, mano!”.
Numa das primeiras vezes que fui ao Rio a trabalho, um rapaz ao saber que eu sou corinthiano sentenciou: “po, oh soh, o Corinthians não tem graça”. E não tem mesmo. Não é pra ter. O bagulho é preto e branco. Não tem cor. Aqui a coisa ferve.
O Flamengo é um domingo de sol. O Corinthians é a vida inteira da gente. O Corinthians é o nosso futuro. É o nosso presente. É o nosso passado. É parte integrante de quem somos. É legal zoar, mas tem hora que não dá. É um caroço de manga preso na garganta.
O Flamengo é carnaval, o Corinthians é o dia da revolução!
O flamenguista é torcedor. O corinthiano é militante.
O Corinthians é uma causa. Não uma causa vazia em si mesma. Também não quero diminuir o Flamengo. Juro que não se trata disso. Mas no Corinthians tem muito mais coisa envolvida. E não é só paixão. O Corinthians é a história do nosso povo. Muitas coisas aconteceram no Corinthians porque sempre foi por lá que a história escorreu e virou um rio com correnteza forte trombando em um monte de pedras.
Sim, existe algo de bonito e democrático na torcida do Flamengo. Ali cabe todo mundo. Não falo isso com desdém. O Flamengo é o time de “todos”. O Corinthians não é o time de todos. A verdade é essa. O Corinthians é o time dos escolhidos. Escolhidos num sentido de destino compartilhado, não de seleção refinada, até porque, ao mesmo tempo que é o time dos escolhidos, o Corinthians é o time dos excluídos.
O Flamengo é espalhado e heterogêneo. O Corinthians é denso e homogêneo.
O Corinthians é a maior, mas se preferirem é também a menor torcida do Brasil.
Existe um Corinthians muito íntimo para cada um de nós. Existe um Corinthians bem pequeno e provinciano para cada grupo de amigos que se reúne. O Corinthians é um clube de futebol profissional, uma marca, uma empresa, mas é também um time de várzea nas vilas e comunidades, onde sempre existem grupos que se juntam em seu nome. Estão em diferentes lugares, mas sempre com um sentido comum e uma unidade espiritual, vibrando na mesma direção. O Corinthians é um clube nacional, mas é também um time de bairro. É só ir ao clube, nas sedes de torcidas, nos coletivos espalhados, nos grupos de amigos. O Corinthians cabe na palma da nossa mão. Todo mundo se conhece. Sabe quem é quem. É impressionante.
Do muro para fora do Parque São Jorge, o Corinthians é gigante, do muro para dentro, muitas vezes é pequenininho.
O Corinthians vive na zona leste do coração do nosso povo, independente de onde nosso povo estiver.
O Corinthians é o time da maioria, mas é também o time das minorias. Não dá pra rasgar a história. Quem quiser, pode até ficar puto com a história, mas mudar não consegue. O Corinthians se fez como o clube das minorias. Isso tem uma grande diferença. Não é o clube de todos. É o clube das minorias. Quando digo minorias, falo sob o sentido da representação nas instâncias de poder. O Corinthians se construiu como o time dos imigrantes refugiados, dos retirantes, dos favelados, dos negros, dos sem voz. Hoje é também o clube das mulheres que não aceitam mais serem subjugadas.
Falo por mim, eu não nutro nenhum desprezo pelo Flamengo. Rejeito quando algum corinthiano chama o flamenguista de mulambo. Maloqueiro chamando o outro de mulambo é meio complicado.
Mas, amigo flamenguista, tem coisas que não dá pra negar. Veja só, de uns anos pra cá, não deu pra deixar de notar que o Flamengo tem imitado o Corinthians em algumas coisas.
O Flamengo tem seguido nossos passos em coisas boas, mas também em coisas ruins que temos feito. Digo isso, pois me solidarizo com o torcedor do Flamengo que de uns tempos pra cá também tem sido excluído dos estádios. O Flamengo segue nossos passos até mesmo no que temos feito de pior, ou seja, afastar seu povo dos estádios, elitizar, cercar.
O Flamengo tem seguido nossos passos em coisas boas, mas também em coisas ruins que temos feito. Digo isso, pois me solidarizo com o torcedor do Flamengo que de uns tempos pra cá também tem sido excluído dos estádios. O Flamengo segue nossos passos até mesmo no que temos feito de pior, ou seja, afastar seu povo dos estádios, elitizar, cercar.
A exclusão dessas massas de torcedores é burra, inclusive do ponto de vista administrativo e econômico, pois o grande patrimônio e a grande fonte de receita desses clubes não é bilheteria de estádio. No caso do Corinthians, inclusive, essa renda nem vem pra nós. Nem dá pra saber se algum dia essa bilheteria voltará para os cofres do clube. Vai demorar muito. Penalizar o torcedor, desvinculá-lo afetivamente, desconstruir conexões culturais, deixa-lo mais distante, acaba por fazer com que joguemos contra nosso futuro. Na prática, estamos vendendo (se isso que é importante) pra menos gente, não para mais gente. É fazer um gol contra.
O Flamengo pode contratar ex-jogadores do Corinthians. Pode imitar coisas boas e coisas ruins. Pode concorrer pelo mesmo espaço nas mídias, pelos maiores contratos de patrocínio, por maior audiência na televisão, por maior orçamento. Mas, de verdade vos digo, o Flamengo nunca vai ser o Corinthians. Nem se o Flamengo nascer de novo.
Somos mais fortes porque somos mais do que um time de futebol. Somos uma ideia que paira no ar. Um sentimento que habita no metafísico. Algo que não se toca. O inconsciente coletivo. Vencemos jogos invencíveis. Nos superamos na adversidade. Somos um todo que vem das casas, das ruas, dos bares, da arquibancada para dentro de campo. Por isso sabemos torcer para times tecnicamente ruins. Sabemos jogar, conscientes de nossas limitações, sem nenhuma crise de inferioridade. Temos senso de oportunidade e sabedoria para vencer o inimigo, por maior que ele seja.
Até porque o Corinthians vive o jogo como a gente joga a vida da gente.
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
Manifesto da Gaviões da Fiel por seu Presidente
Salve GAVIÕES DA Fiel! Papo reto "GAVIÃO NÃO VOTA EM BOLSONARO
Rapaziada é o seguinte... não queria entrar no debate de política, mas o que estou acompanhando nas nossas redes sociais, de Gavião apoiar Bolsonaro - fez eu vir aqui pra passar um papo reto pra vocês... vocês aceitando ou não, eu como presidente dos Gaviões, tenho que passar o que a gente carrega na nossa ideologia dentro desses quase 50 anos de história.
Você que é associado dos Gaviões, sabe da história da sua Torcida? Você sabe que na nossa fundação, em 1969, vivíamos em plena Ditadura Militar? Você sabe que no período da nossa fundação tínhamos como principal objetivo derrubar um ditador dentro do nosso clube? Você sabe que os nossos fundadores sofreram muita opressão por levantar a bandeira em favor da democracia e dos direitos do povo?
Sei que hoje nos Gaviões da Fiel, uma torcida com mais de 112 mil sócios, tem sócios de diversas classes sociais, da hora, cada um fez por onde pra chegar onde está... só que é o seguinte rapaziada, vocês que apoiam um cara que vai contra todas as nossas ideias e joga no lixo o nosso passado de muitas lutas, por favor, se forem seguir apoiando esse cara, repense sobre sua caminhada dentro da Torcida. Ou seja, se está no Gaviões por interesses pessoais, status, para ostentar apenas uma camisa ou se beneficiar atrás de ingresso e pagar nas redes sociais que faz parte da maior torcida do Brasil, por favor, se retirem. Pode passar lá no Vip e assinar a carta de saída.
Somos uma torcida que defende os direitos do nosso povo e não podemos deixar que o nosso maior representante seja contra nós e contra tudo aquilo que lutamos.
Rodrigo Gonzalez Tapia (Digão) - Presidente
GAVIÕES DA FIEL TORCIDA"
GAVIÕES DA FIEL TORCIDA"
ORGULHO DE SER GAVIÃO, ORGULHO DE SER CORINTHIANS!! SALVE DIGÃO, ME REPRESENTA!
terça-feira, 18 de setembro de 2018
O Brasil que eu não quero //Jornal do Brasil Hildegard Angel
No início dos anos 60, a campanha urdida pelos udenistas, liderados por Carlos Lacerda, assombrava o país com o medo do “comunismo” e denúncias de desvios e corrupção. João Goulart seria um corrupto insaciável e Juscelino Kubitscheck, que morreu pobre, teria ficado milionário com a construção de Brasília, beneficiando seus amigos. Com ressonância na mídia, essa campanha martelava ininterruptamente na cabeça dos brasileiros. Eu, menina, com 11, 12 anos, lembro-me do medo que se tinha do tal “comunismo”. Os comunistas viriam para interromper nossos sonhos individuais de prosperidade e casa própria. Eles entrariam em nossas casas, nos destituiriam de nossos bens, e os pobres “ficariam com tudo nosso”. Era assim que os golpistas de então botavam terror no povo brasileiro. Eleito, o udenista Jânio Quadros - um descompensado que deu provas disso desde o período eleitoral - quis dar o golpe, não conseguiu, renunciou, jogando o Brasil em 20 anos de ditadura militar. E a UDN? E Lacerda? Foram jogados pra escanteio, tiveram que se comportar como sabujos lambe-botas para sobreviver.
Lacerda foi cassado. Os políticos, alijados dos cargos e da vida pública. Assim acontece quando há uma ruptura constitucional, quando as leis passam a, em vez de serem cumpridas, obedecer a “interpretações” subjetivas, a serviço de conveniências outras. Perde-se o controle, e quem se impõe não são os agentes da desestabilização. Estes, golpeiam, mas não levam. No Brasil, prevaleceram os que melhor interpretaram o medo coletivo do “comunismo”, oferecendo como alternativa a repressão violenta. Os militares.
E não havia, naqueles anos, uma empresa no Brasil, um negócio, uma portinha, que não precisasse ter em seus quadros um militar para poder se manter aberta. Caso contrário, eram só dificuldades. Fiscais multavam indevidamente, burocratas emperrava os processos. E se o empresário em questão tivesse algum tipo de ligação com governos anteriores, de Getúlio, Goulart e JK, estava fadado à perseguição e à falência.
A comunidade rejeitava qualquer pessoa ligada, mesmo que remotamente, a partidos políticos demonizados, como o PTB e o PSD. Muitas delas foram presas e perseguidas. Os partidários do PCB - Partido Comunista Brasileiro - foram presos e eliminados. Como Alberto Aleixo, irmão de Pedro Aleixo, vice-presidente de Artur da Costa e Silva. Alberto era um idealista, editava o jornal de esquerda Voz Operária. Em 1975, foi preso e morreu em consequência das torturas. Pedro soube de sua prisão, mas, mesmo com tantas credenciais, nada pode fazer pelo irmão.
No país, estabeleceu-se o terror. Hoje, os revelados documentos de Estado norte-americanos da época acusam o Brasil de ter praticado o “terrorismo de Estado”. A contrapropaganda era usada à exaustão e com sucesso. Então, terroristas não eram os que sumiam com as pessoas, as encarceravam, torturavam e matavam. Eram os jovens idealistas, que, quando muito, se defendiam com “coquetéis molotov” - uma garrafa e um pavio. “Subversivo” era todo aquele que pensasse diferente do poder. A qualquer denúncia anônima, agentes do Dops invadiam residências, vasculhavam tudo, e bastava encontrarem um livro de economia de Celso Furtado para a família inteira ser presa como agitadora. E as consequências, imprevisíveis. Não se sabe se sairiam vivos. Quem duvidar que duvide, mas era assim.
O terror de Estado, as violências, torturas com crueldades inimagináveis, ensinadas por especialistas importados dos EUA e até da França - estes últimos financiados por empresários de extrema direita, dos quais alguns se compraziam em assistir às sessões de tortura. Uns doentes.
Todos tinham medo de todos. A filha de um síndico da Base Aérea do Galeão relata o medo que os próprios oficiais tinham do comandante, brigadeiro Bournier, considerado um descontrolado, com sangue nos olhos e o poder nas mãos. O brigadeiro dos “voos da morte”, em que pessoas eram jogadas ao mar, e com o requinte das pernas quebradas. Caso sobrevivessem, não poderiam nadar.
Este era o Brasil. Sobreviviam os que baixassem a cabeça, não vissem, não escutassem, não comentassem, num perpétuo “jogo do contente”, que durou duas décadas. Mesmo em casa, ninguém podia conversar com franqueza, com o risco de algum empregado ou visitante escutar e denunciar. “Dedurava-se”, delatava-se, caluniava-se a três por dois, qualquer desafeto que atravessasse o caminho. O marido ciumento entregava como “subversivo” o vizinho, de quem desconfiava estar cortejando sua mulher. Sei de um caso em que o vizinho foi levado para averiguação e nunca retornou. Este era o cotidiano brasileiro.
Eram as pessoas soturnas, com seus coturnos, que oprimiam a liberdade de todos. Quem as desagradasse era “excomungado”, tornava-se um “degradado social”, mesmo se não fosse preso. Ninguém queria lhe falar, atender seu telefonema. Atravessavam a calçada. Ser covarde era um mérito.
Estudantes foram impedidos de frequentar escolas e universidades. A censura veio rigorosa e extremamente ignorante. Hoje, fazem piada dos exageros dos censores. Peças de teatro tiradas de cartaz. Novelas da TV tinham vários capítulos inteiros reescritos. Livros, como “Capitães de areia”, de Jorge Amado, e “Tarzan”, de Edgard Burroughs - aquele mesmo, o Tarzan da Chita - eram proibidos com a pecha de “comunista”. Em sua sanha perseguidora, os censores viam cabelo em ovo. As canções falavam por metáforas, para refletir o sentimento do artista e as angústias do povo.
O lema “Ame-o ou deixe-o” estava em plásticos colado às janelas dos automóveis, como um salvo-conduto para os motoristas. E tantos “deixaram”, forçados ao exílio como mecanismo de sobrevivência. Essas memórias são feridas que nunca param de sangrar.
Hoje, em véspera de eleição, momento crucial em que a preocupação geral é a segurança, os telejornais a enfatizam, como agentes provocadores de intimidação dos brasileiros. Apavorados, os cidadãos só enxergam seu pânico, alheios a qualquer perspectiva positiva. E ações extremas passam a ser única opção. Uma sociedade manipulada, não só pelos fatos, mas sobretudo pelo noticiário, que potencializa os temores de cada um. Nenhuma brecha para fatos construtivos. É esse o projeto político da grande mídia? Incendiar o país? Plantar a discórdia? A insegurança generalizada?
Esse medo coletivo fortalece a posição de candidatos sem qualquer capacidade ou preparo para exercer as funções de Presidente da República Federativa do Brasil, em que a segurança é fator importante, mas não único. E a educação? E a habitação? E o saneamento básico? E a retomada do desenvolvimento estagnado da Nação brasileira? E a engenharia brasileira, fundamental para o desenvolvimento e a multiplicação de empregos, desde a mão de obra não especializada ao engenheiro? Onde se quer chegar? Entregar a Nação a um despreparado? Ou a outro que já tenha mostrado competência? Qual o Brasil que queremos?
sábado, 25 de agosto de 2018
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Carta Testamento de Getulio Vargas
"Deixo
à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte. Levo o pesar de não haver
podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos
mais necessitados, todo o bem que pretendia. A mentira, a calúnia, as mais
torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos
inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa. Acrescente-se a
fraqueza de amigos que não me defenderam nas posições que ocupavam, a felonia
de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês e a
insensibilidade moral de sicários que entreguei à justiça, contribuindo todos
para criar um falso ambiente na opinião pública do país, contra a minha pessoa.
Se a simples renúncia ao posto a que fui elevado pelo sufrágio do povo me
permitisse viver esquecido e tranquilo no chão da pátria, de bom grado
renunciaria. Mas tal renúncia daria ensejo para com fúria, perseguirem-me e
humilharem. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos
poderosos do dia e às castas privilegiadas. Velho e cansado, preferi ir prestar
contas ao senhor, não de crimes que contrariei ora porque se opunham aos
próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos
pobres e aos humildes. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o
sangue de um inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus. Agradeço aos que
de perto ou de longe trouxeram-me o conforto de sua amizade. A resposta do povo
virá mais tarde....
Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois
de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros
internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de
libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei
ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais
aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do
trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a
justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar
liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás
e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi
obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente.
Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do
trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas
declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais
de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso
principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão
sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a
hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em
silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que
agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se
as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo
brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre
convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado.
Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a
luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento
a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a
vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa
consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo
com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória.
Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem
fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre
em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação
do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O
ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida.
Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo
no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."
(Rio de Janeiro, 23/08/54 -
Getúlio Vargas)
domingo, 12 de agosto de 2018
sábado, 11 de agosto de 2018
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
sexta-feira, 20 de julho de 2018
sábado, 14 de julho de 2018
Discurso final de ‘O grande ditador’, de Charlie Chaplin (1940)
O discurso:
“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!.”
domingo, 8 de julho de 2018
Janio: condenação do Brasil na OEA desmoraliza o Supremo! Crime contra a Humanidade não prescreve / PHA/ Conversa Afiada

Essa foto de Vladimir Herzog deveria substituir o Cristo crucificado, na parede atrás da mesa da presidência do Supremo (sic) Tribunal (sic)
O Conversa Afiada reproduz luminoso artigo de Janio de Freitas, na Fel-lha, sobre a treva que encobre a suprema justiça: "Crime e impunidade".
A segunda condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, por “falta de investigação, julgamento e punição” do assassinato de Vladimir Herzog em tortura, leva a uma situação nova e embaraçosa para o Supremo Tribunal Federal, o Exército e já para o futuro governo. Tal dificuldade está implícita na sentença da corte. E foi aumentada pelo governo Temer.
Em sua decisão, a corte deu um ano ao Brasil para apresentar relatório sobre as providências de investigação das circunstâncias e identificação dos responsáveis na morte de Herzog. Diante disso, o Ministério das Relações Exteriores comprometeu-se em comunicando público a apresentar à corte, no prazo fixado, o relatório das ações.
Logo, volta-se ao problema da anistia. Quando acionado, há oito anos, o Supremo considerou-a impeditiva de consequências judiciais em casos como o de Herzog. Assim consolidava, também, a decisão da juíza Paula Avelino no ano anterior, quando deu o crime contra Herzog como prescrito. Aí está um conflito de sentenças, entre o Supremo e a Corte Interamericana. E haverá de receber alguma solução, ou arremedo de. O menos provável é que isso caiba à corte, cuja posição é de cobrança e não de risco de ônus.
O problema para o Supremo é ainda maior do que a divergência. A corte preveniu-se já na sentença contra os escapismos adotados no Brasil para sustentar a impunidade dos criminosos militares. Um trecho: o Brasil “não pode invocar a existência de prescrição”, “nem a lei de anistia ou qualquer outra disposição excludente de responsabilidade para escusar-se do seu dever de investigar e punir responsáveis”. O assassinato de Herzog, em tortura no então 2º Exército em São Paulo, é classificado como “crime contra a humanidade, que é imprescritível”.
Uma possibilidade é a de reabertura, no Supremo, do exame da anistia. Se não para atender à corte, poderia ser, por exemplo, a pretexto de que o atestado de óbito de Herzog em 2012 foi alterado na Justiça, por iniciativa da Comissão da Verdade com a família: passou de suicídio a “morte por maus-tratos em dependências do Exército”. A partir daí, haverá o que fazer para produzir um relatório à altura do pedido e, mais ainda, da honra nacional às vezes lembrada por um ou outro.
Se não reaberta a discussão, o país estará exposto “às consequências jurídicas do Direito Internacional”. Até por ser a segunda condenação, com razões semelhantes, seguindo-se à da impunidade dos cruéis assassinatos de presos na guerrilha do Araguaia. Com um ano de prazo, não há que esperar qualquer providência séria do governo Temer em atenção às exigências da corte. O problema se encaixa na herança para o eleito em outubro. Destinado a vivê-lo sob as pressões do Exército e em situação de total dependência da posição do Supremo sobre a lei de anistia e a alegada prescrição.
A condenação do Brasil contém um significado mais. É a vitória de uma luta de mais de 40 anos: o combate da brava família criada por Vladimir Herzog pelo reconhecimento e condenação, ainda que no exterior, do crime com que a ditadura militar a mutilou mas não não venceu.
Em sua decisão, a corte deu um ano ao Brasil para apresentar relatório sobre as providências de investigação das circunstâncias e identificação dos responsáveis na morte de Herzog. Diante disso, o Ministério das Relações Exteriores comprometeu-se em comunicando público a apresentar à corte, no prazo fixado, o relatório das ações.
Logo, volta-se ao problema da anistia. Quando acionado, há oito anos, o Supremo considerou-a impeditiva de consequências judiciais em casos como o de Herzog. Assim consolidava, também, a decisão da juíza Paula Avelino no ano anterior, quando deu o crime contra Herzog como prescrito. Aí está um conflito de sentenças, entre o Supremo e a Corte Interamericana. E haverá de receber alguma solução, ou arremedo de. O menos provável é que isso caiba à corte, cuja posição é de cobrança e não de risco de ônus.
O problema para o Supremo é ainda maior do que a divergência. A corte preveniu-se já na sentença contra os escapismos adotados no Brasil para sustentar a impunidade dos criminosos militares. Um trecho: o Brasil “não pode invocar a existência de prescrição”, “nem a lei de anistia ou qualquer outra disposição excludente de responsabilidade para escusar-se do seu dever de investigar e punir responsáveis”. O assassinato de Herzog, em tortura no então 2º Exército em São Paulo, é classificado como “crime contra a humanidade, que é imprescritível”.
Uma possibilidade é a de reabertura, no Supremo, do exame da anistia. Se não para atender à corte, poderia ser, por exemplo, a pretexto de que o atestado de óbito de Herzog em 2012 foi alterado na Justiça, por iniciativa da Comissão da Verdade com a família: passou de suicídio a “morte por maus-tratos em dependências do Exército”. A partir daí, haverá o que fazer para produzir um relatório à altura do pedido e, mais ainda, da honra nacional às vezes lembrada por um ou outro.
Se não reaberta a discussão, o país estará exposto “às consequências jurídicas do Direito Internacional”. Até por ser a segunda condenação, com razões semelhantes, seguindo-se à da impunidade dos cruéis assassinatos de presos na guerrilha do Araguaia. Com um ano de prazo, não há que esperar qualquer providência séria do governo Temer em atenção às exigências da corte. O problema se encaixa na herança para o eleito em outubro. Destinado a vivê-lo sob as pressões do Exército e em situação de total dependência da posição do Supremo sobre a lei de anistia e a alegada prescrição.
A condenação do Brasil contém um significado mais. É a vitória de uma luta de mais de 40 anos: o combate da brava família criada por Vladimir Herzog pelo reconhecimento e condenação, ainda que no exterior, do crime com que a ditadura militar a mutilou mas não não venceu.
segunda-feira, 25 de junho de 2018
segunda-feira, 18 de junho de 2018
quinta-feira, 14 de junho de 2018
Papa Francisco mandou terço abençoado a Lula, esclarece em carta Juan Grabois, desmentindo Agência Lupa de checagem / do VIOMUNDO


PS do Viomundo: A Agência Lupa de checagem, parceira do Facebook, declarou ser falsa a notícia sem fazer a devida checagem com as fontes originais — Grabois, o Vaticano e o Papa — e ameaçou vários sites de punição por espalhar fake news. Cabe a pergunta: e quando a agência de checagem errar, como será punida?
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Ilustração: João Brizzi DE GRILAGEM A TRABALHO INFANTIL: SURGEM NOVOS CRIMES DE BERNARDO PAZ, IDEALIZADOR DO INHOTIM Bruna de Lara
8 de Junho de 2018, 9h00
FAZ MENOS DE um ano que o reinado de Bernardo de Mello Paz ruiu. Em agosto, o idealizador do Instituto Inhotim, maior museu a céu aberto da América Latina, foi condenado em primeira instância a nove anos de prisão por lavagem de dinheiro. Quatro meses depois, já longe da presidência do Inhotim, o empresário foi condenado a outros cinco anos por evasão fiscal. Agora, uma investigação da revista Bloomberg Businessweek, assinada pelo repórter Alex Cuadros, autor do best seller Brazillionaires, revela novidades: a fortuna que colocou a cidade mineira de Brumadinho no circuito da arte mundial foi construída à base de trabalho infantil e escravo, desmatamento ilegal e grilagem de terras.
Inhotim era sequer um sonho distante quando, em 1973, Paz foi trabalhar com o sogro na Itaminas, uma companhia de minério de ferro. Mais interessado no lucro do que em projetos sociais, como escreve Cuadros, o empresário passou a incorporar outras mineradoras e se apossou de terras ocupadas há décadas por agricultores familiares. Através da Replasa Reflorestadora SA, Paz cultivou mais de 20 mil hectares de eucalipto no cerrado mineiro. As árvores – fontes do carvão que esquentava as máquinas de fundição das mineradoras – foram plantadas na nascente de córregos, infringindo a legislação ambiental. A água, antes abundante, secou. Os agricultores foram expulsos.
“Foi uma humilhação”, desabafou o filho de um agricultor ao jornalista, lembrando-se do dia em que funcionários da Replasa chamaram a polícia para enxotá-los de uma colheita. Hoje com 41 anos, José Gonçalves Dias começou a trabalhar aos 10, sem qualquer registro, em uma carvoaria contratada pela Replasa, para ajudar a família. Às vezes, os pés da criança, calçados apenas com chinelos, sofriam queimaduras. Sua irmã Maria do Rosário Gonçalves Dias, que aos 14 anos trabalhava diretamente para a Replasa espalhando pesticidas, também não tinha equipamento de proteção. Um advogado da empresa nega as denúncias.
Apesar dessas acusações, Paz só virou manchete em 1986, quando sete trabalhadores morreram no rompimento de uma barragem de rejeitos da Itaminas. Um funcionário afirma que a estrutura, sobrecarregada, foi construída sem uma planta adequada. Duas décadas depois, outras violações foram reveladas. Em 2007, descobriu-se que uma das fornecedoras de carvão das empresas de Paz empregava 36 pessoas em condições análogas à escravidão. Os trabalhadores eram obrigados a comprar suas próprias serras-elétricas e viviam em um local infestado por escorpiões. No ano seguinte, algumas das empresas de Paz tiveram que pagar mais de 13 milhões de dólares em multas pelo uso de carvão proveniente de desmatamento ilegal.
Em 2009, as infrações do cultivo de eucalipto de Paz foram pegas pela fiscalização. Naquele mesmo ano, Dias e outros agricultores decidiram ocupar a plantação. O grupo foi expulso por mais de 70 policiais, mas o processo judicial que se seguiu acabou revelando mais uma possível ilegalidade do empresário. O aluguel das terras, concedido pelo governo, seria ilegal, descobriu o advogado e ativista André Alves de Souza, que entrou com uma ação judicial questionando a posse de Paz.
Segundo a Procuradoria-Geral de Minas Gerais, a transação foi comandada por um servidor envolvido em um esquema de venda de terras públicas. Ainda assim, Paz nunca deixou o local. A ação continua em andamento, mas já surtiu efeito sobre os negócios da Replasa e seu dono. Hoje, a maior parte das plantações estão paradas, e Paz teve que empenhar um complexo de produção de um subproduto do minério de ferro como garantia para pagamento de suas diversas multas.
“O Inhotim é um monumento à onipresença do dinheiro sujo do mercado de arte”, escreve Alex Cuadros. Em abril deste ano, Paz se comprometeu a transferir a posse de 20 obras expostas em seu museu, todas em seu nome, para o governo – é o equivalente a 100 milhões de dólares em impostos atrasados. Em contrapartida, convenceu o governo a mantê-las em Inhotim. Trata-se do “truque mais brilhante da carreira de Paz”, conclui o repórter: decidir como os impostos que nunca pagou devem ser gastos.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
segunda-feira, 4 de junho de 2018
sábado, 2 de junho de 2018
sexta-feira, 1 de junho de 2018
domingo, 20 de maio de 2018
Qual é a origem da Língua Portuguesa?, por Marco Neves O Jornal de todos Brasis Qual é a origem da Língua Portuguesa?, por Marco Neves GILBERTO CRUVINEL DOM, 20/05/2018 - 08:18 Enviado por Gilberto Cruvinel Qual é a origem da Língua Portuguesa? Por Marco Neves Do blog Certas Palavras
O leitor Paulo Vieira enviou-me esta mensagem:
Ouvi-o na Prova Oral afirmar que a nossa língua vem do galego e estava agora a ler uma notícia do Público sobre os Lusíadas, a que fez referência no artigo da língua bastarda, e nessa notícia é dito que a obra tem uma forte influência do castelhano, língua que aparentemente era muito usada na corte.
Fiquei interessado e gostava de esclarecer quais as origens da nossa língua. Recomenda algum livro sobre o tema?
No final deste artigo, deixo algumas sugestões de leitura.
Mas antes, porque esta compulsão para escrever parece não ter cura, vou tentar explicar aquilo que sei (ou penso saber). Mas tenho de avisar: não sou linguista histórico. Sou um tradutor e professor que estuda linguística por motivos práticos e junta a isso uma paixão pela disciplina.
Pois bem: a verdade é que gosto muito da história da língua — e julgo ser este um tema que nos interessa a todos. Com base no que fui aprendendo ao longo dos anos, mas também com base na leitura dos livros e artigos que refiro no final, aqui fica o meu resumo (os erros, claro, serão meus e não dos livros e artigos — ressalve-se!).
O português vem do galego?
Enfim: todos nós que dizemos falar português e todos os que dizem falar galego falamos qualquer coisa que teve origem nos falares da Galécia, ali no noroeste da Península. Durante séculos, o latim trazido pelos soldados e colonos romanos e adquirido por toda a população foi sofrendo transformações — não as podemos ver em tempo real, porque ninguém as registava ou escrevia, mas, muitos séculos depois, quando finalmente a língua começou a ser escrita, havia nesse território uma língua já formada, com verbos próprios, com formas próprias, com características que a identificam e a distinguem das outras línguas em redor.

A Galécia romana. A nossa língua terá nascido no triângulo que corresponde, de forma muito pouco rigorosa, à metade noroeste do território a verde.
O que chamavam as pessoas a essa língua que já era, em muitos aspectos, a nossa? Não lhe chamavam nem galego nem português: chamavam-lhe linguagem, com toda a probabilidade. Era a língua do povo. Nós, agora, olhando para trás, podemos chamar-lhe «português», o que não deixa de ser anacrónico, ou «galego», o que não deixa de assustar algumas almas mais sensíveis, ou «galego-português», para agradar a gregos e a troianos (como se esses fossem para aqui chamados). Na escrita, durante todos esses séculos do primeiro milénio, o latim continuou rei e senhor.
Quando Portugal se tornou independente, começámos a usar a língua que existia no território, que era ainda apenas o Norte. Não a escolhemos de imediato, pois nos primeiros tempos o latim ainda foi a língua oficial. Mas, devagar, a língua que era de facto falada começou a infiltrar-se nos textos escritos, às vezes de forma imperceptível, outras vezes de forma mais clara.
O país expandiu-se para sul e, com ele, veio a língua, claro. O português nasceu nesse canto noroeste e expandiu-se até ao Algarve (e, mais tarde, até além-mar). Por alturas de D. Dinis era já a língua oficial.
Depois, no final do século XIV, temos revoluções, a batalha de Aljubarrota… — a nobreza nortenha perde influência, a burguesia lisboeta alça-se à posição de classe dominante (e tudo o mais que faz parte da História). Lisboa é agora a capital e a nação esquece-se que a língua veio do norte, não foi criada em todo o território nacional. O que se falava em Lisboa seria esse galego-português que viera para sul com a Reconquista. Houve, claro, algumas intrusões do moçárabe, a linguagem latina do sul (com muitos arabismos). Mas, nas suas estruturas e características principais, a língua que Portugal assumiu como sua é a língua criada na Galécia: não houve um ponto em que o galego e o português se tivessem separado claramente.
Influências castelhanas no português literário
Não houve um ponto em que o galego e o português se separassem claramente. Mas há, isso sim, algum afastamento da língua padrão em relação ao que se fala mais a norte. Muito desse afastamento fez-se também por causa das influências externas. Com a corte em Lisboa, e durante muitos séculos (na época de Camões, por exemplo), o castelhano teve uma influência que hoje poucos imaginam. Os escritores portugueses também escreviam, muitos deles, em castelhano. Liam em castelhano. A igreja usava muito o castelhano. A corte também usava o castelhano. Era a língua de prestígio. As misturas eram inevitáveis…
Ora, o português popular de todo o país não sofreu estas influências de forma tão marcada. Assim, arrisco-me a dizer que o português popular manteve durante mais tempo uma maior grau de semelhança com o galego do que o português-padrão — talvez por não ter tanta influência castelhana. Principalmente no Norte, o português e o galego mantiveram-se tão próximos que a fronteira era difícil de traçar. Mais a sul, na Corte, na capital, a língua “desgaleguizava-se” (ver artigos de Fernando Venâncio citados abaixo). Para as elites lisboetas, o galego e o português do Norte começaram a soar a português da província. E, no entanto, era de lá que tinha vindo a língua…
Depois, o castelhano deixou de ser uma influência forte no português (aí por volta do século XVIII); vieram então as influências francesas e, já bem entrado o século XX, começamos a olhar para o inglês.
Sim, sempre fomos uma língua que sofreu influências fortes de outras culturas. Podemos não gostar do facto, mas é isso mesmo: um facto. Não fiquem horrorizados: o castelhano também teve vagas dessas, o francês idem — então o inglês nem se fala. Não percam muitas horas de sono com isso — e, depois, a língua vai atrás da cultura, neste ponto: se quisermos uma língua pura, temos de fechar a cultura a influências exteriores. As línguas mais puras são as mais isoladas, as menos importantes.
Para terminar este resumo muito resumido, diga-se que o português-padrão se expandiu de forma fenomenal durante o século XX, com a escola, a televisão, a rádio, a imprensa. Aí, as formas do sul começaram a suplantar as outras formas, que subsistem, mas com menos força. O português começou a tornar-se mais homogéneo (e menos nortenho/galego) — mas tudo isto já é história das últimas décadas…
E o galego?
Bem, quanto ao galego, lá em cima, num país sem corte, uma sociedade rural, não sofreu tanta influência castelhana até muito tarde, embora essa aparente pureza seja apenas reflexo do isolamento da sociedade. Grande parte da população galega, aliás, só terá começado a sentir a invasão da sua língua pelo castelhano quando a escolaridade obrigatória apareceu no horizonte — e a televisão, jornais, etc. Ou seja, para muitos galegos, o castelhano tornou-se influência no século XX (nas elites terá sido antes, claro). Apesar de tardia, a influência do espanhol é avassaladora, claro está. Aliás, chamar-lhe influência será um eufemismo cruel. O espanhol não influenciou o galego: o espanhol começou a substituir o galego. Afinal, o Estado é o espanhol e a escolaridade da população foi em castelhano até muito tarde. Ou seja, nos séculos XIX e XX, o galego levou uma coça de que ainda não se levantou, apesar de, desde os anos 70, o governo autónomo ter, oficialmente, uma política de defesa da língua.
Alguns galegos tentam aproximar a sua língua do português para assim melhor se defenderem do peso do castelhano; outros apostam num galego autónomo tanto do castelhano como do português. Mas que o galego e o português ainda estão mais próximos do que imaginamos, isso é indesmentível: então quando começamos a olhar para o vocabulário popular, aquele que muitos desprezam injustamente, começamos a ver como falamos uma língua que não deixa de ser muito galega.
Em resumo…
… o português tem origem no latim popular falado no noroeste da Península, na Galécia Magna, língua essa a que podemos chamar galego por ser uma língua da zona do Reino da Galiza, uma língua já com características muito próprias séculos antes da existência de Portugal. Ao tornar-se a língua dum estado independente a sul, chamado Portugal, a língua passou a chamar-se português — e com esse nome foi transplantada para os outros países que a falam. Apesar das mudanças a sul, a língua mantém uma forte proximidade com o que se fala a norte da fronteira. Essa língua portuguesa, como é típico duma língua dum país de cultura aberta a outros povos, sofreu grandes influências exteriores: do castelhano, do francês, do inglês… Até hoje. Também nos dias de hoje as formas mais padronizadas do português começam a suplantar as formas mais populares entre a população em geral — enquanto na Galiza, o castelhano avança.
Isto é uma explicação simplificada, claro está. É ainda a minha forma de o explicar: outros dariam ênfases a outras partes ou acrescentariam pontos talvez importantes… Se alguém quiser corrigir, matizar, completar, os comentários estão abertos!
(Proponho ainda que dê uma vista de olhos pelas histórias romanceadas que escrevi e que tentam dar uma ideia do que foi o percurso do idioma nesses primeiros séculos: «História Secreta da Língua Portuguesa».)
Bem, mas a pergunta era outra: que livros de especialistas podemos ler sobre o assunto?
Proponho dois livros breves, recentes, sobre a História da língua:
- Introdução à História do Português, de Ivo Castro (um livro académico e actualizado, com fartos exemplos concretos).
- História do Português, de Esperança Cardeira (um livro brevíssimo, editado numa colecção da Caminho sobre temas de linguística).
Proponho também três artigos de Fernando Venâncio sobre o assunto (convém dizer que as aulas que o autor deu na FCSH, este ano, permitiram-me aprender muito sobre as origens da língua):
- «O passado galego do português»
- «Entre Latim e Português: o Galego»
- «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português»
Se está interessado na origem da língua portuguesa, não perca A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, um relato surpreendente da história milenar da nossa língua, que junta os falantes comuns da língua aos nossos grandes escritores: D. Dinis, Gil Vicente, Camões, Eça, etc.
Marco Neves: Tradutor e professor. Autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa (2016), A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (2017) e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (2017). Saiba mais nesta página.
quinta-feira, 17 de maio de 2018
O Pacote do Veneno vai afetar a sua vida; saiba como No mundo inteiro ninguém mais quer os cancerígenos agrotóxicos: países desenvolvidos estão proibindo diversos produtos e dando prazo para o banimento de muitos outros. No Brasil, políticos financiados pelos fabricantes pretendem aprovar um conjunto de leis que vai afetar diretamente a sua vida

No mundo inteiro ninguém mais quer saber de agrotóxicos. Tanto que muitos países vêm restringindo o uso, proibindo diversos produtos e dando prazo para o banimento de muitos outros. A França vai banir o glifosato, o mais vendido no planeta, porque pesquisas confiáveis mostram que a substância é causadora de vários tipos de câncer. Fora outras doenças graves. Os brasileiros também não querem mais.
A procura por alimentos orgânicos é crescente e o consumo só não é maior porque a oferta ainda é pequena. Com poucas feiras, a maioria localizada em regiões mais nobres, e o preço maior que os comuns nos supermercados, a comida saudável, livre de venenos, ainda é coisa de elite. Outra demonstração do repúdio aos agroquímicos é a coleta de 100 mil assinaturas em apenas uma semana por meio da plataforma digital #ChegaDeAgrotóxicos.
Como muitos países estão banindo esses produtos, os fabricantes querem desovar seus estoques no Brasil, que já é o maior mercado consumidor. Para isso, encomendaram aos políticos financiados por eles a revogação da legislação atual e a aprovação de uma nova, desenhada para facilitar o registro de novos produtos, inclusive perigosos e proibidos em outros países, aumentando assim as vendas.
Essa mudança será por um conjunto de 27 projetos de Lei apensados, que ganhou o apelido de “Pacote do Veneno”, e que acabou compilado em um substitutivo do deputado ruralista Luiz Nishimori (PR-PR), relator da comissão especial criada para analisar os projetos. Os PLs e o substitutivo têm sido duramente criticado pelo Ministério Público Federal, Ibama, Anvisa, Conselho Nacional de Saúde, Abrasco, Fiocruz, Conselho Nacional de Direitos Humanos, Idec, Fórum Nacional e estaduais de combate aos efeitos dos agrotóxicos e transgênicos e outras associações, fóruns, movimentos e coletivos de saúde, meio ambiente, consumidor, agricultura familiar e agroecologia.
O substitutivo deve ser votado nesta quarta-feira (16), em reunião da comissão, onde os ruralistas são maioria. Se for aprovado, segue para o plenário, com enormes chances de aprovação. A bancada ruralista, diretamente interessada, é maioria também no Congresso.
Mais venenos
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Se fosse dividir o total consumido pelo número de habitantes, daria perto de sete litros para cada um todo ano. A tendência é de aumentar muito mais esse consumo, já que todas as regras serão modificadas justamente para acelerar o registro e aumentar as vendas.
O pacote permite a aprovação de novos produtos com base em estudos realizados em outros países, apesar das diferenças entre as condições ambientais. Por outro lado, não proíbe aqui o que foi proibido em outros países. Por mais liberdade de ação, o pacote retira o Ministério do Meio Ambiente e o da Saúde, por meio do Ibama e da Anvisa, da edição ou propositura de normas, inclusive o processo de reavaliação. Tudo isso passa a ser controlado pelo Ministério da Agricultura, cujo ministro, Blairo Maggi, é autor de um dos projetos de lei que compõem o pacote.
A avaliação sobre questões toxicológicas e ecotoxicológicas e o monitoramento da quantidade de resíduos de agrotóxicos nos alimentos, também deixam de ser responsabilidade da Anvisa. Se atualmente a quantidade de resíduos encontrada já é muito maior do que a permitida por lei, imagine quando o país aumentar ainda mais o uso desses produtos.
Mais intoxicações
A ausência da Anvisa em processos de avaliação e reavaliação toxicológica, e a possibilidade de registro e comercialização de produtos ainda mais perigosos devem aumentar o risco às populações de trabalhadores da agricultura. Moradores de áreas rurais, alunos de escolas rurais pulverizadas, animais, já que todos estarão ainda mais expostos. Mesmo na cidade, serão afetados consumidores de água contaminada e de alimentos banhados com esses produtos todos.
Futuro intoxicado
A saúde de futuras gerações estará seriamente comprometida. Muitas crianças serão envenenadas, inclusive aquelas que ainda nem nasceram. No útero de suas mães já estarão recebendo partículas de agrotóxicos, principalmente agricultoras, já que essas substâncias atravessam a placenta. E também porque o trabalho de gestantes em ambientes insalubres, como em meio a pulverizações, passaram a ser permitidos pela reforma trabalhista do governo de Michel Temer, que agora trabalha pela aprovação do pacote.
Perigo ocultado
O perigo dos agrotóxicos será escondido da população, conforme o pacote. Mudanças na rotulagem deverão excluir a caveira, que mesmo crianças e pessoas sem leitura conseguem associar à ideia de um produto perigoso e mortal. E o nome agrotóxico, que consta inclusive da Constituição federal, será substituído por “defensivo fitossanitário”. Um nome pomposo para tentar esconder a toxicidade, que é uma característica inerente à grande maioria dos produtos destinados ao controle de pragas. Com esses produtos altamente tóxicos passando a ser tratados como meros insumos agrícolas, a perspectiva é de, no mínimo, o aumento de ingestões acidentais de substâncias altamente perigosas e mortais.
Trabalho mortal
A mistura de diversos produtos tóxicos – a chamada calda – que é feita hoje em diversas propriedades à revelia da lei, será legalizada. O grande problema é que a mistura de determinadas composições químicas pode resultar em novas formulações que não foram testadas pelos órgãos reguladores. É possível que os trabalhadores sejam expostos a altos graus de toxidade não identificados, o que viola o princípio da precaução. E pior: a doenças graves e morte.
Nefasto
O pacote propõe a avaliação do risco pelas próprias empresas interessadas no registro de agrotóxicos que revelem características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, que provoquem distúrbios hormonais ou danos ao aparelho reprodutor. Isso é praticamente o mesmo que dizer que será permitido o registro de agrotóxicos, seus componentes e afins mesmo que contenham substâncias que, segundo estudos, têm capacidade de causar mutações celulares que levem a malformações fetais e câncer.
Pela lei atual, a “identificação do perigo” em causar mutações e câncer é suficiente para impedir o registro. A exposição aos agrotóxicos causa ainda intoxicações agudas e crônicas, que levam à infertilidade, impotência sexual, aborto, danos ao sistema nervoso central, como distúrbios cognitivos e comportamentais, e desregulação hormonal com impacto no crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Vida em risco
O meio ambiente também será duramente afetado. O aumento do uso de agrotóxicos tem levado, entre outros crimes ambientais, ao desaparecimento de abelhas, que participam da polinização de mais de 70% das espécies vegetais. Sem abelhas, a reprodução da flora e a produção de alimentos são duramente prejudicadas.
O pacote não define os fundamentos do gerenciamento de risco, como mitigação e controle. Essa prevalência do interesse econômico ou político em detrimento da segurança ao ser humano e ao meio ambiente contraria a Constituição, segundo a qual é do Poder Público o exercício do controle sobre a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente. Ou seja, o controle desses produtos pelo Poder Público deve ter por finalidade primordial a proteção da vida, da qualidade de vida e do meio ambiente.
Por isso o Ibama destaca em parecer: “Não pode o Estado renunciar aos seus mecanismos de avaliação e controle prévio de substâncias nocivas ao meio ambiente contentando-se apenas como o ato homologatório de uma avaliação conduzida pelo particular, distante do interesse público“.
Pragas futuras
O pacote legaliza o “receituário de gaveta”. É como se o agrônomo tivesse uma bola de cristal onde enxergar uma praga que no futuro poderia vir a afetar a lavoura e prescreve agrotóxicos “de maneira preventiva”. Ou se o médico receitasse um medicamento, sem exames, para um paciente que não conhece e que ainda nem ficou doente. Com isso o agricultor, seduzido pelo assédio da indústria disfarçado de promoção, pode comprar agrotóxicos com antecedência, de maneira preventiva, e contaminar o solo e a água por muito mais tempo. Ainda não há métodos de descontaminação da água poluída por esses produtos.
Menos saúde, menos educação
O pacote trará ainda mais prejuízos aos cofres públicos. Historicamente subfinanciado, o SUS passará a ter gastos ainda maiores só com as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos mais perigosos. A Previdência também terá mais gastos extras com aposentadorias por invalidez e, para compensar, o governo terá de tirar recursos de outras áreas, como educação e meio ambiente, por exemplo. Outra perversidade do pacote é que, ao mesmo tempo que impõe perdas ao país, à saúde e ao meio ambiente, vai ampliar os lucros das empresas que contam ainda com os incentivos fiscais do próprio governo. Há estimativas de que o país perca todo ano, por baixo, R$ 1,3 bilhão. Só em São Paulo, em 2015, a renúncia fiscal foi de R$ 1,2 bilhão. Ou seja, o setor recebe do estado para envenenar seu povo. Uma outra distorção do pacote, inconstitucional, é alterar o Pacto Federativo. Mesmo que estados, municípios e o Distrito Federal queiram fazer legislação própria para garantir proteção à sua população, não poderão.
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