quinta-feira, 22 de maio de 2014

Genoino só pode receber ‘livros religiosos’ na cadeia: o relato de uma visita da família


Pai e filha
Pai e filha
O texto abaixo foi escrito por Miruna Genoino.
Meu pai sofreu uma isquemia cerebral transitória (ou o conhecido AVC) em agosto, quando se recuperava da cirurgia do coração e desde então vem sendo tratado com alimentação rigidamente controlada e medicação.
Meu pai precisa ter sempre o índice de coagulação entre 2 e 3.
Quando foi levado para o presídio a primeira vez, saiu de lá com o índice de coagulação em 5,6. Quase com hemorragia.
Agora foi mandado novamente para a prisão e obteve nessa semana um resultado GRAVE e PREOCUPANTE: 1,06. Alto risco de um novo AVC.
Hoje, na visita, depois de serem revistados de cima para baixo, depois da enorme fila, tensão e ansiedade, minha mãe e meus irmãos não puderam entregar as cartas que eu escrevo diariamente para meu pai. “Temos que ler”. Livros, nenhum. “Só religiosos”. Hoje, não puderam nem mesmo entregar alimentos PRESCRITOS pelo médico e pela nutricionista. Hoje, o desenho que meu filho fez para o avô só entrou depois que foi esquadrinhado e muito bem explicado. “Ele é meu sobrinho. (e é o quê dele?) É o neto. (e o que é isso?). É um desenho. Um avião”.
Por que estão fazendo isso com meu pai? Ele não vai mais se candidatar a nada, saiu da vida política, já foi condenado, já mancharam a sua história política, por que isso também? Por que a sua vida, a sua saúde?
Eu não quero um herói, não quero um mártir, nem um símbolo. Eu quero meu pai vivo. Eu quero ter um pai, quero que meus filhos tenham o avô. E quero sobreviver a tudo isso de alguma forma, ainda sem saber ao certo como.
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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Osso, Mastrosso e Carcagnosso: ser mafioso é osso /DCM/

Postado em 12 mai 2014
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Chefão da 'Ndrangueta é preso em operação da polícia italiana
Chefão da ‘Ndrangueta é preso em operação da polícia italiana

Embora pareça, o relato a seguir não é obra de ficção. Foi extraído do livro “Irmãos de Sangue”, que descreve a história e o funcionamento da ‘Ndrangueta segundo um dos principais procuradores antimáfia italianos – Nicola Gratteri – que vive sob proteção de escolta policial desde 1989. As fontes são processos criminais datados desde o século XIX.

“Picciotto”  - ou pivete – é o novato mafioso. Não é preciso ser pivete, no entanto, para se tornar um picciotto [pitchóto]. Até os marmanjos podem.
Para se tornar um picciotto de qualquer idade, porém, é preciso ser batizado. A função do batismo é reforçar os laços de fidelidade entre as as famílias ou quadrilhas.
Osso, Mastrosso e Carcagnosso [carcanhósso] são os três lendários cavaleiros espanhóis fundadores das máfias italianas. Reza a lenda – e a tradição mafiosa – que o trio fugiu da Espanha durante o século XVII depois de vingar com sangue a honra de uma irmã virgem. Aportaram na ilha de Favignana, ao lado da Sicília, onde Osso, devoto de São Jorge, fundou a Máfia. Mastrosso, adorador da Virgem Maria, foi para Nápoles fundar a Camorra, enquanto Carcagnosso criou a ‘Ndrangueta [Andrángueta] na Calábria, em devoção ao arcanjo São Miguel.
A história da máfia se confunde com a das sociedades secretas medievais, da Igreja e da maçonaria do sul da península italiana, que só se tornou o país de hoje a partir da unificação em 1861. Essas sociedades alcançaram um nível de organização e poder ao longo de séculos que permitia e exigia uma sustentação econômica. Sendo secretas, não podiam existir diante do Estado, ao qual se opunham. O crime foi uma solução natural e altamente vantajosa para seu financiamento. Estava criado o crime organizado.
A ‘Ndrangueta é a mais tradicionalista das máfias, a que mais preservou os ritos e tradições originais. Os laços de sangue contam muito em sua organização, pois foi isso que a tornou segura e impenetrável. A delação e o arrependimento são raros em sua história, garantindo a reputação de organização séria e confiável nos compromissos. Essa segurança, aliada à expansão da emigração italiana no mundo todo, criou as condições para que ela assumisse a liderança do tráfico de drogas na Europa.
Segundo o procurador antimafia italiano Vincenzo Macrì, a ‘Ndrangheta é a única máfia globalizada do mundo: “não há continente imune à presença da ‘Ndrangheta, provocada pela emigração em massa dos italianos no passado, mas também da extrema mobilidade de seus líderes e afiliados e da sua capacidade de adaptação a qualquer ambiente, mesmo os mais distantes”, afirma. Ela já está profundamente radicada na Austrália, por exemplo.
Sendo uma organização a ‘Ndrangheta e todas as máfias similares e concorrentes – como a siciliana Cosa Nostra, a napolitana Camorra e a apuliana Sacra Corona Unita – não poderia prescindir de… organização!
Como qualquer empresa, ela possui um quadro de funcionários especializados com os respectivos cargos.
O “jovem honrado” é o estagiário, candidato a ser batizado como picciotto.
A cerimônia de batismo dos estagiários aprovados para serem picciottos é conduzida pelo “chefe de reuniões”. É ele quem conduz a reunião na presença de pelo menos cinco membros que constituem os entrevistadores do candidato.
O processo é mais ou menos assim:
“Jovem, o que você procura?”, diz o chefe da reunião.
“Sangue e honra”, ele responde.
Você tem sangue?
“Tenho e ofereço.”
“Quem lhe apresentou esta sociedade?”, pergunta para registrar quem o recomendou.
“Fulano de tal” – com nome e sobrenome.
“O seu pão será chumbo e sua água será sangue em caso de traição”, avisa antes de lhe declarar um novo membro, dando-lhe um beijo em cada face.
A partir daí a carreira começa. Os batismos para os próximos cargos serão de sangue. Para se tornar um “camorrista” é extraída uma gota de sangue do polegar, na presença do chefe de reuniões e do “contador”. A imagem de Nossa Senhora da Anunciação, manchada pelo sangue do batizado, é queimada durante a cerimônia.
Na próxima etapa o camorrista será avaliado por dois outros membros que farão o papel de promotor e advogado, cada um apresentando razões contra e a favor da sua promoção a “sgarrista”. Os sgarristas podem ser “de sangue” – se cometeram algum homicídio – ou “definitivo”, quando já demonstraram toda sua capacidade. A santa protetora dos sgarristas é Santa Elizabete.
O contador administra as contas a pagar e a receber e a “bacia”, que reúne os fundos destinados à manutenção das pensões, assistência jurídica e manutenção dos detentos.
Chefe do crime é o responsável pelo planejamento e realização dos crimes violentos.
O chefe de bastão geralmente possui uma grande família natural que, por sua vez, reúne um vasto conjunto de outras relações familiares.
Os picciottos, camorristas e sgarristas formam a “sociedade menor”. Os níveis superiores – santistas e evangelistas – formam a “sociedade maior”. As duas sociedades se espelham e se completam.
Os santistas – membros do nível chamado de Santa –  fazem parte de um grupo superior cujos interesses se colocam acima da própria família e do restante da quadrilha. Em caso de necessidade, eles podem trair até a família e membros da organização para proteger o seu grupo específico. Estão autorizados a manter contatos com a polícia e os demais entes do Estado. São os responsáveis pelas relações entre o crime e a política.

Osso, Mastrosso e Carcagnosso
Osso, Mastrosso e Carcagnosso

Os patronos dos santistas – ao contrário dos demais – não são santos, são políticos e militares, como Giuseppe Mazzini – pensador da unificação italiana – e os generais La Marmora e Garibaldi, velho conhecido dos brasileiros. “A tarefa dos santistas não é de ação, mas de pensamento e organização”, revela o procurador Gratteri.
A Santa trouxe maior lucratividade aos negócios e eficiência à organização. Protegidos pelo anonimato da nomeação, livres para trair e proibidos de matarem-se entre si, os santistas puderam aproveitar-se da vantagem de informação que detinham sobre os negócios de seus próprios sócios.
Um santista não pode ser julgado. Em caso de traição deverá se envenenar ou será morto por um grupo dentre seus próprios pares, os encapuzados, que possuem liberdade de participar também da maçonaria. Para isso recebe uma pastilha de veneno no momento do batismo, que é feito após indicação dos nomes por membros definidos durante a reunião anual de cúpula no santuário de Nossa Senhora da Montanha em Polsi, no Aspromonte da Calábria, de 2 a 4 de setembro, da qual participam expoentes do mundo inteiro.
Acima dos santistas vêm os “evangelistas”. O Evangelho é um dos últimos níveis de carreira na ‘Ndrangheta. Seus patronos são o revolucionário Mazzini e o diplomata Cavour – dois líderes da unificação italiana diametralmente opostos. Um, republicano e, o outro, monarquista. Seus santos preferidos são os apóstolos, com destaque para Pedro e Paulo.
A cerimônia de formação do Evangelho começa com as seguintes palavras:
“Em nome de Gaspar, Melquior e Baltazar, ao cair do sol e ao nascer da lua, está formada a santa corrente. Sob os nomes de Gaspar, Melquior e Baltazar e de Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu na terra e ressuscitou no céu, nós, sábios irmãos, formamos este sacro evangelho”.
São feitas três votações com três juramentos a cada uma para admitir o novo membro, todas em nome dos três reis magos. Na segunda ele recebe a marca de uma cruz no ombro esquerdo, que é beijada pelo mestre da cerimônia. Na terceira e última torna-se um evangelista, entre os vinte e cinco líderes máximos da ‘Ndrangheta.
Uma organização altamente complexa e descentralizada, portanto, que a torna muito difícil de ser enfrentada pela justiça. Caso contrário, bastaria prender o líder e estava tudo resolvido.
O tamanho e a complexidade da ‘Ndrangheta também torna difícil o reconhecimento entre seus próprios membros. Uma multinacional dá crachás iguais a seus funcionários no mundo inteiro. Os mafiosos utilizam perguntas e respostas como senha e contrasenha. Uma delas delas é assim:
“Você caminha pra cima ou pra baixo da estrada?”
“Caminho pra cima e pra baixo porque sou malandro.”

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Como possuir as mulheres mais belas segundo Jean Jacques Rousseau / e eu achando que era séria a conversa..........


Postado em 06 mai 2014
Rousseau
Rousseau
Vamos elevar o nível dos debates.
Jean Jacques Rousseau, o popular Rousseau. Todos conhecem, com certeza. Presumo que citem frases dele com frequência. É pelo menos o que todos fazíamos em minha Havana natal, nos breves intervalos em que não estávamos na praia tomando sol ou derrubando mulatas maravilhosas que faziam nossos bispos (os sobreviventes) chutar postes.
Rousseau fez o mundo como o conhecemos. Os franceses que eliminaram brutalmente a monarquia foram inspirados por Rousseau e seu Contrato Social, que certamente vocês já decoraram de tanto ler, como fazíamos em Havana quando as mulatas não tinham outros planos.
Rousseau inspirou os jacobinos primeiro, e depois Napoleão. Mas até ele tinha que se inspirar em alguém para poder inspirar os outros. JJR se inspirou em Agostinho para escrever As Confissões. Agostinho, o santo, confessou que roubava maçãs na mocidade, assim como nós cubanos, na velha Havana, roubávamos virgindades.
JJR confessou que era adepto fervoroso do onanismo. “A masturbação permite a nós possuir as mulheres mais belas sem que elas tomem conhecimento”, explicou o “maior amigo da humanidade”, como ele era conhecido.
Pronto. Depois de escrever sobre tanta coisa que mamãe, uma santa, não poderia ver sem me punir com sua aberta reprovação, enfim um texto iluminado por Agostinho e Jean Jacques Rousseau.
Estou orgulhoso de mim mesmo.
Sobre o Autor
O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O doutor Cantídio não poderia examinar Genoino por razões éticas e morais

Postado em 04 mai 2014
O marajá de jaleco
O marajá de jaleco
O ministro Joaquim Barbosa deu um tapa na cara da sociedade ao indicar o médico Cantídio Lima Vieira para integrar a equipe incumbida de fazer um exame em Genoino cujo resultado todos sabiam qual seria.
Assim como você sabe antecipadamente como Barbosa vai votar qualquer coisa relativa ao PT, você pode apostar quanto quiser em que Cantídio vai dar um parecer contrário em qualquer exame que envolva um petista.
Este é o Brasil dos nossos dias: não bastasse a justiça ser política, também a medicina se rege, em muitos casos, por simpatias (ou fobias) partidárias.
É gravíssimo que Cantídio tenha sido escolhido mesmo depois de colocar uma enorme foto, no Facebook, em que se lê que Dilma faz mal à saúde.
Como imaginar que um homem assim agisse com isenção ao examinar Genoino?
Barbosa ou sabia e fez a sociedade de idiota. Ou não sabia e mostrou inépcia fabulosa.
Não é a primeira vez que Cantídio é notícia por maus motivos. Algum tempo atrás, a revista IstoÉ o classificou como “Marajá de Jalecó”.
Isso porque, segundo a revista, Cantídio ganha um bom dinheiro para trabalhar (pouco) num controvertido hospital do Senado. (Aqui o texto.)
Clínicas particulares suas, não bastasse isso, prestam também serviços ao hospital. Há aí uma questão ética complicada, ou insanável.
Com todas essas coisas, Barbosa – um autoproclamado cruzado da ética – escolhe aquele “marajá de jaleco”? Barbosa mostra que sempre pode descer um degrau a mais nos atos que a posteridade, longe da proteção da mídia,  haverá de condenar.
Você pode perguntar: existem médicos no Brasil isentos para tratar de casos como o de Genoino?
Se há, não conheço.
Isto não quer dizer que não haja saída.
Dou aqui minha sugestão: defesa e STF indicam um médico estrangeiro de ilibada reputação e reconhecida grandeza.
Eles vêm examinar Genoino. E depois, em conjunto, produzem um laudo.
As vantagens são claras. Estrangeiros, eles estariam longe da pressão de quem seja – mídia, Joaquim Barbosa, colegas médicos ou mesmo o PT.
Por serem médicos de grande nomeada, jamais arriscarão seu prestígio para produzir um laudo politizado, enviesado – ou simplesmente desonesto.
No exterior, você encontra especialistas confiáveis – o que não é o caso do nosso Marajá de Jaleco cujo ódio público e ostensivo ao PT parece ser a maior credencial para integrar a junta que devolveu Genoino à Papuda.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Quem desmoralizou o STF foi o próprio STF


Postado em 29 abr 2014
barbosa_holofote
Você pode discordar da porcentagem utilizada por Lula para definir o que foi o julgamento do Mensalão.
Lula falou em 80% de critérios políticos e 20% de critérios jurídicos.
O que não dá, a não ser que você seja um fanático antipetista, um caçador de petralhas, é discordar de que os juízes se pautaram muito mais pela política do que pela justiça em si.
O julgamento foi político do início ao fim. Você começa pelo empenho em juntar quarenta réus com um único propósito. Fornecer à mídia – visceralmente envolvida na politização do julgamento – a oportunidade de usar a expressão “Ali Babá e os quarenta ladrões”.
Outras coisas foram igualmente absurdas. Por que, em situações juridicamente semelhantes, Eduardo Azeredo do PSDB percorreu o caminho jurídico normal e os réus do Mensalão foram direto ao Supremo, sem chance, portanto, de outras instâncias?
E depois, como classificar a Teoria do Domínio do Fato, que dispensou provas para condenar?
E a dosimetria, pela qual, numa matemática jurídica abstrusa, condenados tiveram penas maiores do que o assassino serial da Noruega?
Num gesto cínico bizarro, o ministro Marco Aurélio de Mello disse que o STF é “apartidário” para rebater as afirmações de Lula.
Quem acredita nisso acredita em tudo, como disse Wellington. Um simples olhar para Gilmar Mendes – que até a jornalista Eliane Cantanhede num perfil classificou como tucano demais.
O STF se desmoralizou não porque Lula falou nos 80%, mas pelo comportamento de seus juízes.
Ou eles estavam zelando por sua honra e prestígio ao posar festivos ao lado de jornalistas “apartidários” como Merval Pereira e Reinaldo Azevedo, como se entre mídia e justiça não houvesse um problema de conflito de interesses?
E quando emergiram as condições em que Fux conquistou seu lugar no STF com o famoso “mato no peito” depois de uma louca cavalgada na qual se ajoelhou perante Dirceu?
A completa falta de neutralidade do STF se estenderia para além do julgamento. Como classificar a perseguição de Joaquim Barbosa a Dirceu e a Genoino?
E a tentativa de negar o direito aos chamados recursos infringentes fingindo que a Constiuição não previa isso? Apartidarismo?
Um argumento falacioso que se usa a favor do STF é o seguinte: mas foi o PT quem tinha indicado a maioria dos juízes.
Ora, então indicou mal, a começar por Barbosa, nomeado por Lula. Eles foram antipetistas estridentes a despeito de terem sido nomeados pelo PT.
Seria horrível se agissem como petistas, é claro. Mas foi igualmente horrível terem se comportado como antipetistas.
O que a sociedade queria, ali, era uma coisa chamada neutralidade, uma palavra muito usada hoje por conta do Marco Civil da internet.
Outro argumento desonesto é o que estica os dedos acusatórios para Lewandowski. Ora, Lewandowski não emplacou uma. Foi voto vencido sempre que se contrapôs à manada.
Entre os juízes da primeira leva, foi o único que se salvou, e isto provavelmente vai ficar claro quando a posteridade estudar o Mensalão.
Se pareceu petista foi porque o ar estava viciadamente antipetista. Era como no passado da ditadura: num ambiente tão anticomunista, todo mundo era comunista.
O STF é hoje um arremedo de corte suprema, mas por culpa sua, e apenas sua.
O Mensalão deixou claro, ao jogar luzes sobre o STF, que uma reforma na Justiça é urgente para que o Brasil possa avançar.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

‘Foi meu segredo’: Eliana Paiva, filha de Rubens, fala ao DCM sobre sua prisão aos 15 anos na ditadura

Eliana fala à Comissão da Verdade
Eliana fala à Comissão da Verdade

Eliana Paiva passou décadas sem contar nada a respeito dos dias em que passou presa, quando tinha apenas 15 anos. “Acho que esqueci o que aconteceu, deixei pra lá, sabe?”, diz ela.
Era janeiro de 1971 e seu pai, Rubens Paiva, deputado cassado, tinha sido preso no dia anterior. Era um engenheiro civil da classe média paulistana, socialista, jovem, empreendedor e bon vivant. Mas uma carta e uma amizade foram suficientes para ser considerado suspeito, preso e espancado até a morte.
Filha e pai não se encontraram na prisão. Aliás, nunca mais se viram. Provavelmente, ele morreu naquele mesmo dia em que ela foi presa, vítima de torturas. Foi dado como desaparecido e seus restos mortais nunca foram encontrados. “Só recentemente é que comecei a contar algumas coisas que eu não comentava nem para a minha família”, diz ela. “Ninguém soube da minha prisão, foi um segredo que guardei por 40 anos e que só revelei na Comissão da Verdade”.
Nessa entrevista exclusiva ao DCM, Eliana recupera as suas lembranças daqueles dias.
Como era o clima na família antes da prisão do seu pai?
A gente não tinha muitas preocupações. Meu pai, que era deputado federal, esteva na primeira lista de cassados, mas, apesar de estar ligado ao partido socialista, era um burguês, de 34 anos, com cinco filhos, engenheiro civil. Nem ele, nem seus amigos, achavam que a repressão ficaria tão séria. Todos eles, intelectuais de esquerda, como o Darcy Ribeiro, o Valdir Pires e o Luís Fernando Bocayuva achavam que os militares eram gorilas, burros, ignorantes, não acreditavam no poder deles. Eram os milicos contra a intelectualidades brasileira. Achavam que isso não ia adiante. Ele se divertia muito, tinha bom humor, levava tudo na brincadeira. Era um grupo muito bom, uma época das mais férteis da cultura brasileira.
Mas seu pai exilou-se antes de ser preso…
Sim, depois do golpe, ele primeiro ajudou o Valdir Pires e o Darcy Ribeiro a embarcaram para fora. Ele tinha um inteligência logística espetacular e todo mundo recorria a ele para fazer essas coisas. Mas quando chegou a hora de ele embarcar, os militares já sabiam e estavam esperando ele no aeroporto. Daí começaram a atirar em plena pista, mas ele conseguiu fugir e foi para a embaixada da Iugoslávia.
Isso ocorreu em Brasília?
Sim. Nós tínhamos um apartamento funcional, onde eu ia de vez em quando passear. Ia fazer turismo mesmo. Para mim, não havia o menor clima ruim. Era uma garota, estudante, curtindo Brasília
E na embaixada da Iugoslávia, o que aconteceu?
A embaixada era uma construção inacabada e nem o embaixador ficava lá. Quem ficava eram os exilados. Meu pai chegou lá e pôs ordem na casa. Fez tabelas com horários para tudo. Tem até uma história que proibiram as mulheres das famílias entrar na embaixada porque eles jogavam vôlei pelados. Eles faziam a festa, do tipo a vida é boa. Daí eles pegaram um vapor e foram para Iugoslávia, onde foram bem recebidos. Meu pai ficou um mês lá e foi para Paris, viver a vida. Também foi para a Inglaterra, fazer um curso sobre plantação de bananas.
Bananas?
É. Ele era engenheiro civil, mas tinha sido cassado. Então achava que o futuro dele era se recolher na fazendo do meu avô e plantar bananas para viver. Ele tinha muita capacidade de trabalho e sabia disso, não ficava assustado com a vida. Ficou oito, nove meses no exílio
E por que ele voltou?
Por que quis, sei lá. Ele tinha passaporte diplomático ainda, por ser deputado, e não tinha sido confiscado. Ainda havia um certo respeito. Meu pai tinha dinheiro, tinha posses, não era suspeito. Daí ele pegou um avião para Buenos Aires e desceu no Rio. Naquela época os aviões paravam no meio da pista, era muita bagunça, não tinha controle. E ele apareceu em casa, sem avisar, dando um susto na minha mãe.
E você, o que pensou de tudo isso?
Eu tinha 9 anos. Estudava no colégio Sion e era sócia do Paulistano. Tinha a minha vidinha. Papai tinha dinheiro de família. Nada parecia muito diferente. Depois que ele voltou para o Brasil, nós mudamos para o Rio, em 1965, onde estavam todos os amigos dele. Lá, a vida continuou, eu virei adolescente. Adorava ler o Pasquim, tinha ficado três meses nos EUA, onde vi “Hair” e “Easy Rider”, chorava ouvindo Joan Baez, queria cortar meus peitos que estavam crescendo e doía…E minha casa se transformou um centro dos intelectuais do Rio. Bebiam, fumavam charutos e riam muito. Meu pai adorava rir, contar piadas e se divertir. Ninguém estava nem aí com os militares. Mas a verdade é que àquelas alturas a casa devia estar sendo vigiada.
E então veio o AI-5…?
É… mas mesmo assim, eles se divertiram. Lembro que meu pai e o Waldir Pires foram para praia no dia do AI-5. A marinha tinha colocado todas as fragatas na costa de Ipanema e Leblon. Mas eles conheciam aqueles navios. Eram velhos, caindo aos pedaços. Lembro de ver os dois rolando de rir, dizendo “as caldeiras vão explodir, essas merdas estão sem manutenção há 50 anos”. Inventaram uma coisa para se divertir no dia do AI -5. Ficaram assustados, sim, perceberam que a coisa estava ficando sério, mas nem tanto.
Ele foi preso só janeiro de 71. O que aconteceu nesse tempo?
Aconteceu que meu tio mais velho teve câncer no cérebro e foi se tratar nos Estados Unidos. Daí meu pai foi visita-lo e, na volta, não resistiu e passou pelo Chile. Foi conhecer o socialismo de Allende e visitar os brasileiros exilados. Distribuiu dinheiro para todo mundo. E fez contato com a Helena Bocayuva, filha do Luís Fernando, que era do MR8 e queria voltar para o Brasil. Mas ele segurou ela lá. Depois, a Helena mandou uma carta pela Cecília Viveiro de Casto em que havia um manifesto do MR8 e o endereço do meu pai. Nessa altura o SNI já estava sendo montado e já sabiam de muita coisa.
Foi por causa dessa carta que ele foi preso?
Provavelmente. E também porque ele tinha um amigo comunista, o Adriano (codinome de Carlos Alberto Muniz, militante do MR-8).
Ele estava desconfiando que seria preso?
Ele estava tenso. Já estavam acontecendo os sequestros de embaixadores, estavam soltando presos e ele sabia que tudo podia acontecer. Só achava que não aconteceria com ele. Não tinha motivos. Ele achava que, se você não tem culpa no cartório, nada pode acontecer.
E como foi no dia da prisão?
Foi em 20 de janeiro de 1971, mais ou menos às duas horas da tarde. Foi levado lá para o DOI-Codi, na Barão de Mesquita. Ele chegou e já entrou na porrada. Ficavam falando “quero ver agora, seu deputadozinho de merda”. Ele era briguento, enfrentava as pessoas e começou a discutir com os caras, a exigir seus direitos. Daí é que os caras bateram mesmo. O cara que bateu nele gostava de bater. Depois largaram ele num canto, pelado, agonizando, e quando levaram ele ao médico, já não tinha mais o que fazer. Pelas conversas que tive com amigos médicos, provavelmente ele teve uma hemorragia interna. Morreu no dia seguinte ao que foi preso, muito provavelmente.
Você já tinha presa nesse momento?
Já. Eu e minha mãe fomos presas no dia seguinte e alguma coisa me diz, uma sensação inexplicável, que ele morreu as cinco horas da tarde desse dia, 21 de janeiro.
O que aconteceu com você no dia da prisão dele?
No dia que meu pai foi preso, ficamos todos em prisão domiciliar. A casa ficou cheia de militares à paisana, gente estranha, tosca. Eu estava na praia, porque era férias, e quando voltei, minha mãe me chamou, muito assustada, e falou para eu sair e ligar para o meu tio, que era advogado. Eu saí, dizendo que ia jogar vôlei, fazia parte da equipe do Botafogo. É estranho, de algumas coisas não lembro, acho que apaguei da memória. Mas, daí eu fui na casa de um amigo, liguei para o meu tio e fiquei dando voltar em torno da minha casa. Quando entrei, um cara, um militar, do tamanho de um armário, veio tirar satisfação comigo, segurando um cabo elétrico na mão, ameaçador. Daí eu falei: “vamos conversar, senta aqui comigo, o que está acontecendo?” (rindo). Eu tinha só 15 anos. Pode?
E depois?
Não lembro de mais nada. Lembro só no dia seguinte, quando minha mãe me acordou para dizer que a gente foi convocada para prestar depoimento. Escolhi uma roupa que me cobria inteira, uma túnica preta, porque eu estava com medo. Essa roupa eu joguei fora porque tinha cheiro da prisão.
Vocês foram encapuzadas?
Sim, fomos. Entramos num fusca e lá perto do Maracanã fizeram a gente colocar o capuz, um troço fedido, devia ter sido usado por muita gente. Fiquei encapuzada a maior parte do tempo na prisão.
E lá, o que aconteceu?
Fui separada da minha mãe e me revistaram inteirinha. Inteirinha mesmo, sem o menor escrúpulo e ainda por cima por um homem. Daí me puseram num corredor, ainda de capuz, sentada no chão. Todo mundo que passava me dava um coque na cabeça, mexia nos meus peitos, me chamava de comunista, essas coisas. Eu nunca entrei na leitura da história. Nunca entendi direito o que acontecia.
Você foi interrogada?
Três vezes. No meio da tarde fui interrogada numa sala minúscula por um sujeito bastante grosseiro, gordo e peludo, extremamente violento, que foi me agredindo, fazendo perguntas sobre amigos do meu pai. “Teu pai é um grande comunista”, ele falava. “Não sei se ele é um grande comunista, acho que ele nunca leu Marx”, eu respondia. De repente ele diz que eu também era comunista. E mostra o trabalho que fiz sobre a Primavera de Praga. Era um trabalho escolar, do primeiro colegial. Eu caprichei, fiz pesquisa, era um bom trabalho. Mas…era sobre um fato que aparecia direto na imprensa e não tinha nada de comunista. Acho que foi isso que motivou minha prisão.

A família Paiva
A família Paiva

E depois, o que aconteceu?
Daí entrou um militar à paisana na sala e disse: “Cirurgião, nós temos um trabalho para você”. Cirurgião era como chamavam o torturador que me interrogava. Ele estava sendo convocado para interrogar algum infeliz. Me mandaram de volta para o corredor e eu fiquei ali, encapuzada, ouvindo a tortura nas outras salas. Ouvia berros: “Parem com isso, pelo amor de Deus” gritavam. Para mim foi um horror ouvir aquilo. A primeira vez que contei isso, não parava de chorar. Ouvir tortura, vedada num corredor, foi a coisa mais enlouquecedora do mundo. Eu fiquei meio estática, pensando “agora sei onde estou”. Duas horas depois, fui a outro interrogatório. Desta vez com um sujeito um pouco mais velho, mais sério, mais sábio. Ele me perguntou como eu estava e daí baixou o Rubens Paiva. Comecei a reclamar e a ameaçar, dizendo que tinha apenas 15 anos e que eles não podiam me prender. Estão me apalpando no corredor, estou ouvindo torturas, tem uns meninos sendo maltratados no corredor, eu falava. Acho que nessa hora, meu pai já estava agonizando, porque amainou o tom, eles deviam estar assustados.
E a sua mãe, onde estava?
Quando eu saí desse segundo interrogatório, tiraram o meu capuz e colocaram uma venda. Eu conseguia ver alguma coisa por baixo. E vi minha mãe entrando na sala da qual eu estava saindo. Falei com ela. Ela perguntou como eu estava, de uma maneira muito doce, nunca vou esquecer. Foi a única vez que eu a encontrei. Ela ficou presa onze dias. Nos três primeiros, ficou estática na cama, sem reação, porque sua filha tinha sido presa também.
Daí você voltou para o corredor?
Isso mesmo. Desta vez, eu conseguia ver por baixo, porque estava só de venda. Eu chorava compulsivamente. Conseguia identificar as pessoas sendo arrastadas, os sapatos. Depois me levaram para uma cela, tiraram a venda.
Você ficou sabendo que seu pai tinha morrido?
Praticamente sim. Tinha uns guardinhas no corredor, muito jovens, que ficaram me dando mole, porque, imagina, eu tinha 15 anos, era uma garota bem bonita. Daí eles me contaram que meu pai estava muito mal mesmo, que estava agonizando.
Você ainda teve um terceiro interrogatório?
Tive. Mas foi de madrugada, não lembro de nada, eu estava morrendo de sono. Mas eles estavam recuando naquele momento, papai já devia estar morto.
E quando você foi solta?
No dia seguinte. Lembrou que amanheceu com música do Roberto Carlos, “Jesus Cristo”. Daí me chamaram para ir embora, me deram a bolsa da minha mãe. Eu não quis ir. Queria ir com a minha mãe. Mas eles insistiram e eu estava louca para sair daquele lugar. Me puseram num fusquinha e me largaram na praça Saenz Pena.
Você voltou para casa?
Liguei para uns amigos do meu pai e eles me levaram. Depois quando minha mãe saiu, fomos para Santos na casa do meu avô e passamos a morar lá. Esperando que meu pai aparecesse. Na verdade, quem esperava era os meus avós. Nós já tínhamos certeza de que ele estava morto.
E o corpo do seu pai nunca apareceu…
Nunca. Andaram contando umas histórias de que o corpo foi jogado no mar, depois de ter sido enterrado em vários lugares. (segundo o depoimentodo coronel reformado Paulo Malhães, desmentido em seguida por ele mesmo) Para mim, é tudo fantasia. Acho que colocaram o corpo numa vala qualquer e esqueceram.
É importante para você encontrar o corpo?
Acho que sim. Quero ter a oportunidade de fazer o luto do meu pai.
Como esses eventos influenciaram na vida da sua mãe e na sua?
Minha mãe foi forte, entrou para a faculdade de direito e se tornou uma advogada brilhante. Mas ela me disse certa vez que passou os três anos seguintes pensando em se matar. Eu acho que nunca superei totalmente. Tenho problemas profissionais, não consigo me organizar. Já fui professora da USP mas não consegui manter o cargo. Tenho uma característica comum a todos os que foram presos na infância e adolescência: não enxergo os limites da vida. Parece que sou incapaz de respeitar as hierarquias. É confuso.
Por que você demorou tanto para contar essa história?
Acho que esqueci o que aconteceu, deixei pra lá, sabe? Puxa, eu tinha 15 anos, precisava viver a vida e minha história, a minha prisão, a morte do meu pai não interessava a ninguém dos meus amigos. E se eu lembrava, tinha ataques de choro. Houve uma vez em que tive um estresse muito grande e comecei a delirar e tudo o que eu via eram cenas do holocausto, da morte dos judeus. Eu não sou judia. Não entendi isso. Deve ter alguma ligação com o que eu passei.
Sobre o Autor
Jornalista, escritor, cineasta e advogado.