A revolta liderada pelo almirante negro - episódio praticamente extinto dos livros de história, pois se trata de uma dos maiores levantes de um setor das Forças Armadas - é um exemplo de luta não só para os trabalhadores negros, mas para toda a classe ope
Pela primeira vez a Marinha brasileira torna público documentos sobre o marinheiro de 1ª classe João Cândido Felisberto (1880-1969), o almirante negro que pôs fim aos castigos corporais na Marinha após liderar a Revolta da Chibata, em 1910.
Os documentos históricos vieram à tona somente 98 anos depois devido à iniciativa de uma equipe de historiadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) a serviço do Projeto Memória da Fundação do Banco do Brasil, que iniciou uma pesquisa sobre o líder da revolta.
Coordenado por Marco Morel, a pesquisa levantou uma série de documentos do Arquivo Nacional até então jamais revelados, baseando-se na lei 11.111/05, que permite a liberação de documentos oficiais.
Nem os filhos e nem o próprio João Cândido nunca puderam ter acesso aos papéis. O almirante negro "nunca existiu na Marinha", contestou certa vez ele mesmo.
O documento mais importante é a ficha funcional do marinheiro. Tendo ingressado na Marinha em 10 de dezembro de 1895, João Cândido iniciou sua carreira militar como grumete e chegou a ser promovido a cabo, mas foi rebaixado - duas vezes - algum tempo depois. Ao todo permaneceu na Armada durante 15 anos até ser expulso em 1910 e relegado ao esquecimento. Em todo o tempo de Marinha foi punido nove vezes, variando de dois a quatro dias em uma solitária até o rebaixamento na hierarquia.
Em sua ficha de 24 páginas escritas à mão não há nenhum registro sobre espancamento, fato comum naquela época que durou mais de duas décadas.
Os castigos físicos contra os marinheiros foram extintos pela primeira vez em 1889, mas voltou a entrar em vigor com o Governo Provisório um ano depois.
O estopim para o levante liderado por João Cândido, então com 30 anos de idade, foi a punição do marinheiro Marcelino Rodrigues, condenado a 250 chibatadas. O movimento foi deflagrado no dia 22 de dezembro de 1910.
De acordo com os registros, até três meses antes da revolta João Cândido recebeu o último elogio por bom comportamento.
A revolta que acabou definitivamente com as chibatadas na Marinha causou a expulsão de João Cândido e o seu banimento da quase totalidade dos livros de história.
João Cândido liderou mais de três mil marinheiros que exigiam o fim das chibatadas e chegaram a apontar os canhões dos navios de guerra para São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sede do governo federal.
A revolta terminou com a promessa do presidente da República, Hermes da Fonseca, de acabar com os castigos e anistiar todos os revoltosos, mas isso não aconteceu. Pelo contrário, João Cândido e outros líderes da Revolta foram presos e submetidos às piores condições.
Como vendedor de peixes, morreu na completa pobreza, sem patente nem aposentadoria, no dia 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro, sendo perseguido até o fim de seus dias.
Neste exato momento, a população brasileira vê, atônita, a preparação de um golpe de estado tosco, primário e farsesco. Alguém poderia contar a história da seguinte forma: em uma república da América Latina, o vice-presidente, uma figura acostumada às sombras dos bastidores, conspira abertamente para tomar o cargo da presidente a fim de montar um novo governo com próceres da oposição que há mais de uma década não conseguem ganhar uma eleição. Como tais luminares oposicionistas da administração pública se veem como dotados de um direito divino e eterno de governar as terras da nossa república, para eles, “ganhar eleições” é um expediente desnecessário e supérfluo.
O vice tem como seu maior aliado o presidente da Câmara: um chantagista barato acostumado, quando pego em suas mentiras e casos de corrupção, a contar histórias grotescas de fortunas feitas com vendas de carne para a África e contas na Suíça com dinheiro depositado sem que se saiba a origem. Ele comanda uma Câmara que funciona como sala de reunião de oligarcas eleitos em eleições eivadas de dinheiro de grandes empresas e tem ainda o beneplácito de setores importantes da imprensa que costumam contar a história do comunismo a espreita e do bolivarianismo rompante para distrair parte da população e alimentá-la com uma cota semanal de paranoia. O nome de sua empresa diz tudo a respeito do personagem: “Jesus.com”.
O golpe ganha um ritmo irreversível enquanto a presidenta afunda em suas manobras palacianas estéreis e nos incontáveis casos de corrupção de seu governo. Ela havia dado os anéis para conservar os dedos; depois deu os dedos para guardar os braços. Mais a frente, lá foram os braços para preservar o corpo, o corpo para guardar a alma e, por fim, descobriu-se que não havia mais alma alguma. Reduzida à condição de um holograma de si mesma e incapaz de mobilizar o povo que um dia acreditou em suas promessas, sua queda era, na verdade, uma segunda queda. Ela já tinha sido objeto de um golpe que tomou seu governo e a reduziu à peça decorativa. Agora, nem a decoração restou.
Bem, este romance histórico ruim e eternamente repetido parece ser a história do fim da Nova República brasileira. Que ela termine com um golpe de estado primário, fruto de um pedido de impeachment feito em cima da denúncia de “manobras fiscais” em um país no qual o orçamento é uma ficção assumida por todos, isto diz muito a respeito do que a Nova República realmente foi. Incapaz de criar uma democracia real por meio do aprofundamento da participação popular nos processos decisórios do Estado e equilibrando-se na gestão do atraso e do fisiologismo, ela acabou por ser engolida por aquilo que tentou gerir. Para justificar o impeachment, alguns são mais honestos e afirmam que um governo inepto deveria ser afastado. É verdade, só me pergunto por que então conservar Alckmin, Richa, Pezão e cia.
O fato é que, no lugar da Nova República, o Brasil depois do golpe assumirá, de vez, sua feição de Estado Oligárquico de Direito. Um estado governado por uma oligarquia que, como na República velha, transformou as eleições em uma pantomima vazia. Uma oligarquia que já mostrou seu projeto: uma política de austeridade que não temerá privatizar escolas (como já está sendo feita em Goiás), retirar o caráter público dos serviços de saúde, destruir o que resta dos direitos trabalhistas por meio da ampliação da terceirização e organizar a economia segundo os interesses não mais da elite cafeeira, mas da elite financeira.
Mas como a população brasileira descobriu o caminho das ruas (haja vista as ocupações dos estudantes paulistas), engana-se aqueles que acreditam poder impor ao país os princípios de uma “unidade de pacificação”. Contem com um aumento exponencial das revoltas contra as políticas de um governo que será, para boa parte da população, ilegítimo e ilegal. Mas como já estamos dotados de leis antiterroristas e novas peças de aparato repressivo, preparem-se para um Estado policial, feito em cima de leis aprovadas, vejam só vocês, por um “governo de esquerda”. Faz parte do comportamento oligarca este recurso constante à violência policial e ao arbítrio para impor sua vontade. Ele será a tônica na era que parece se iniciar agora. Contra ela, podemos nos preparar para a guerra ou agir de forma a parar de vez com este romance ruim.
Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias mais comuns de manipulação em massa através dos meios de comunicação de massa“
Noam Chomsky é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como “o pai da linguística moderna“, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica.(Fonte)
Chomsky elenca estratégias utilizadas diariamente há dezenas de anos para manobrar massas, criar um senso comum e conseguir fazer a população agir conforme interesses de uma pequena elite mundial.
Qualquer semelhança com a situação atual do Brasil não é mera coincidência, os grandes meios de comunicação sempre estiveram alinhados com essas elites e praticamincansavelmente várias dessas estratégias para manipular diariamente as massas, até chegar um momento que você realmente crê que o pensamento é seu.
1. A estratégia da Distração
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética.
“Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais“
2. Criar problemas e depois oferecer soluções
Este método também é chamado “problema-reação-solução“. Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar.
Por exemplo: Deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade.
Ou também:Criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. (qualquer semelhança com a atual situação do Brasil não é mera coincidência)
3. A estratégia da gradualidade
Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas, neoliberalismo por exemplo,foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estratégia também utilizada por Hitler e por várioslíderes comunistas. E comumente utilizada pelas grandes meios de comunicação.
4. A estratégia de diferir
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.
É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.
Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5. Dirigir-se ao público como crianças
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental.
Quanto mais se tenta enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.”
6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos.
Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.
“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade
Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9. Reforçar a auto-culpabilidade
Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços.
Assim, no lugar de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E, sem ação, não há questionamento!
10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem
No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes.
Graças à biologia, a neurobiologia a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado sobre a psique do ser humano, tanto em sua forma física como psicologicamente.
O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.
HEMORROIDAS...ARDEM e QUEIMAM!! Vejam o que um amigo me mandou. O pai dele operou e escreveu! Sem comentários ... esse texto foi feito pós-operação do traseiro dele !!!!
Deixei exatamente como ele mandou.
Afinal são pequenas palavrinhas sem maldade... Ri demais...
HEMORRÓIDAS
Ptolomeu em 150 d.C. falava que a terra era o centro do universo e que tudo girava em torno dela, foram precisos cerca de 1400 anos para esta teoria ser rebatida por Nicolau Copérnico provando para a humanidade que o Sol sim era o centro.
Eu, simplesmente eu, descobri em apenas três dias, após 56 anos, que ambos estavam redondamente enganados: o centro do universo é o cu. Isso mesmo, o cu!
Operei das hemorroidas em caráter de urgência algumas semanas atrás. No domingo à noitinha, o que achava que seria um singelo peidinho, quase me virou do avesso.
É difícil, mas vamos ver se reverte, falou meu médico. Reverteu merda nenhuma, era mais fácil o Lula aceitar que sabia do mensalão do que aquela lazarenta bolinha (?) dar o toque de recolher.
Foram quase 2 horas de cirurgia e confesso não senti nadica de nada, nem se me enrabaram durante minha letargia!
Dois dias de hospital, passei bem, embora tenham tentado me afogar com tanto soro que me aplicaram. Foram litros e litros; recebi alta e fui repousar em casa.
Passados os efeitos anestésicos e analgésicos, vem a primeira vez. PUTA QUI PARIU!!! Parece que você ta cagando um croquete de figo da Índia, casca de abacaxi, concha de ostra e arame farpado. É um auto-flagelo.
Parece que você tá cagando uma briga de 5 gatos, sai arranhando tudo.
Caguei de pé, pois sentado achei que o cu ia junto...
Por uns três dias dói tanto que você não imagina uma coisinha tão pequena e com um nome tão reduzido (cu) possa doer tanto. O tamanho da dor não é proporcional ao tamanho do nome, neste caso, cu deveria chamar dobrovosky, tegulcigalpa, nabucodonosor.
Passam pela cabeça soluções mágicas: - Usar um ventilador! Só se for daqueles túneis aerodinâmicos. - Gelo! Só se eu fosse escorregar pelado por uma encosta do Monte Everest. - Esguichinho d'água! Tem que ser igual a da Praça da Matriz, névoa seguida de jatos intercalados.
Descobri também que somos descendentes diretos do bugio, porque você fica andando como macaco e com o cu vermelho; qualquer tosse, movimento inesperado, virada mais brusca, o cu dói, e como !
Para melhorar as idas à privada, recomenda-se dieta na base de fibras, foi o que fiz: comi cinco vassouras piaçaba, um tapete de sisal e sete metros de corda. Agora sei o sentido daquela frase: quem tem medo de cagar não come!
Tudo valeu, agora já estou bem, cagando como manda o figurino, não preciso pensar para peidar, o cu ficou afinado em ré menor, uma beleza!
O foda é que usei Modess por 20 dias após a cirurgia e hoje to sentindo falta dele!
orinthians não chegaria aos 105 anos de vida sem Neco. Provavelmente, não chegaria nem aos cinco. Há um século, o jogador – protótipo do maloqueiro e sofredor valorizado pelo torcedor até hoje – comandou uma espécie de assalto à própria sede do clube, à beira da falência, salvando os bens sob risco de penhora.
Manoel Nunes também esteve entre aqueles que pegaram na enxada e transformaram em campo de futebol um terreno arrendado na Ponte Grande (atual Ponte das Bandeiras), a primeira casa oficial alvinegra. Um dos muitos motivos que levaram o historiador Celso Unzelte a sugerir que o estádio de Itaquera fosse batizado de Manoel Nunes “Neco”.
Atuando em várias posições do ataque, Neco defendeu o Corinthians entre 1913 e 1930 (foto: acervo/Gazeta Press)
Quando falou sobre essa ideia à Gazeta Esportiva, em 2013, ele advertiu que não seria possível colocá-la em prática, pela necessidade de se comercializar o nome da arena da zona leste de São Paulo. A inauguração ocorreu há mais de um ano e meio e, apesar de múltiplas promessas, nenhuma empresa topou pagar para aposentar o provisório título Arena Corinthians.
“Até dava, né?”, sorriu Unzelte, revisitando a velha ideia e se mostrando contrário a uma homenagem a algum presidente. “Neco é um nome acima de qualquer suspeita, não tem política. Porque, se botar o nome do Matheus, a turma que é contra o Matheus não vai gostar. Se botar o do Andrés, a turma que não é do Andrés não vai gostar. Se botar o nome do Wadih Helou, também vai ter a turma do contra.”
Nenhum desses nomes será o escolhido. A diretoria se diz finalmente próxima de um acerto pela venda do que insiste em chamar de “naming rights”. De qualquer maneira, independentemente do termo adotado e da empresa compradora, gente como Manoel Nunes seguirá distante do estádio que deixou o Corinthians geograficamente mais perto da periferia e essencialmente mais longe do povo.
Manoel Domingos Corrêa se rendeu aos “carroceiros”, o que não o livrou de levar uma surra de cinta (foto: reprodução)
“É… O público está mais para Manoel Domingos Corrêa”, afirmou Celso Unzelte, referindo-se ao rico comerciante português que foi desafeto do primeiro grande ídolo alvinegro. “Tem muito pouco de operário ali. Só seria o nome dele mesmo. O estádio não tem muito a ver com a legenda do velho Neco.”
Corrêa estava no campo do Velódromo, em 1913, em um dos jogos eliminatórios que deram ao Corinthians o direito de disputar seu primeiro Campeonato Paulista. Parte da elite que se enojava com a tentativa do povo de lhe tomar o futebol, o comerciante chamou a formação preta e branca do Bom Retiro de “time de carroceiros”. Nequinho, como ainda era conhecido, não suportou a ofensa.
Então um torcedor com 18 anos recém-completados, o futuro ídolo mostrou o temperamento que ajudaria a construir sua figura mítica, partindo para cima do grã-fino. O mesmo grã-fino que se renderia aos carroceiros e viraria dirigente do clube, sendo inicialmente tesoureiro e depois se tornando o 18º presidente, entre 1941 e 1943.
“Fiquei triste, pois nem ao menos o homem era corintiano. Estava lá só por causa do dinheiro”, lamentou Neco, muito tempo depois, em 1974, ainda magoado. Seu sentimento é ecoado no daqueles que não têm espaço no “palácio de mármore”, como alguns frequentadores do estádio do Corinthians o chamam.
The favela is here and the Corinthians is orange (foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
Havia poucos Necos no palácio, no último domingo, na celebração de um título obtido com muita facilidade. Ainda assim, com ou sem dinheiro, em um edifício majestoso ou em um barraco de Itaquera, quem comemorou o hexa do Campeonato Brasileiro só o fez por causa daquele que sempre será a cara do clube.
A contribuição de Manoel Nunes vai muito além de seus 235 gols em 296 jogos ou de seus oito títulos paulistas. Nascido na mesma rua da agremiação preta e branca, cresceu com ela e a fez crescer. Usando a cinta – parte do uniforme de sua época e, de acordo com múltiplos relatos, sua arma favorita para intimidação – e assaltando o próprio Corinthians se necessário fosse.
Manoel Nunes morreu em 1977, aos 82 anos, sem nunca ter deixado de lado seu puro amor (foto: acervo/Gazeta Press)
Foi necessário há cem anos. Campeão da LPF (Liga Paulista de Futebol) em 1914 com 100% de aproveitamento, o time alvinegro tentou entrar na liga das equipes mais ricas, a Apea (Associação Paulista de Esportes Atléticos). Rejeitado, ficou sem campeonato para jogar em 1915 e se viu em enorme dificuldade financeira. “É o ano em que o clube quase foi à falência. O Corinthians quase fechou”, recordou Celso Unzelte, que revirou e continua revirando a história da agremiação.
Com o aluguel da pequena sede administrativa atrasado, veio a cobrança.
“O senhorio condescendeu a princípio. Conversou numa boa. Mas bastava olhar o rosto sem jeito dos rapazes para apalpar a interrogação que estava no ar: cadê o dinheiro senhor? Espremendo o bolso da moçada, revirando o forro, virando os sujeitos de cabeça para baixo, era mais fácil pular fora uma lagartixa que o ‘vil metal’”, descreveu o cronista Lourenço Diaféria, em seu estilo romanceado, no livro “Coração Corinthiano”.
“Precatado, já cismando o pior, o dono da salinha com toilette pôs as barbas de molho na bacia da prudência e avisou, com voz dura: ‘Ou acertam o aluguel ou… tranco tudo!’. E foi girando a chave na fechadura que ele havia mandado trocar. Dali não saía nem uma cadeira. Ficava tudo retido em garantia da dívida”, relatou Diaféria.
De acordo com Unzelte, não se tratava de nada de grande valor. Eram móveis e alguns troféus, principalmente de outros esportes, “mas era tudo o que o clube tinha”. Neco, então, propôs o furto.
“Combinou-se. Dito e feito. Madrugada fria e úmida, sem luar, naquela hora quieta em que até os grilos dormem, os vultos solertes caminharam nas trevas como duendes, forçaram as cremonas, treparam por uma escada de pintor de paredes – o clube tinha bons pintores em seu quadro associativo –, invadiram a saleta sem bulir na fechadura, retiraram tudinho, comandos em ação. Deixaram as quatro paredes nuas como a mulher de Adão. Até a folhinha de reclame de Ao Paraíso das Andorinhas – uma loja na rua Marques de Itu, nº 40, que vendia camisas para senhoras a 4 mil e quinhentos réis – carregaram embora”, seguiu Diaféria.
Na imaginação de Lourenço Diaféria, nem o folheto foi deixado para trás (foto: reprodução)
Quando o dono da saleta apareceu, na manhã seguinte, “os corinthianos haviam batido as asas sob o testemunho cúmplice das estrelas”. “A dívida do aluguel foi paga meses depois, sem pressa, sem afobação”, concluiu o cronista.
A folhinha de Ao Paraíso das Andorinhas provavelmente é fruto da fértil imaginação de Lourenço Diaféria. Aparentemente, o cronista também se confundiu em relação ao momento do furto, apontando 1912. É possível ainda que a salvação dos móveis e troféus no quinto ano de vida do clube não tenha sido decisiva para sua longevidade.
O que não se pode negar é o valor de Neco, puro amor alvinegro. Cem anos antes de 43.652 pessoas festejarem seu primeiro título em um estádio que custou mais de R$ 1 bilhão, ele estava tramando a invasão a uma saleta alugada para o Corinthians crescer.